Não, nós não somos as salvadoras das muçulmanas – por Priscila Bellini

Olhando assim, parece uma constatação óbvia. Entretanto, não faltam exemplos de como as feministas ocidentais encaram a vivência de mulheres muçulmanas – em especial, as que estão no “Oriente”, e mais especificamente as mulheres árabes. E falo isso com conhecimento de causa, visto que caí nessa muitas vezes. Eu me lembro claramente de ler, quando tinha meus 12 anos, os relatos sobre o quão opressor era o lado de lá, o quanto as moças estavam rendidas e quietas. Naquela época, li os textos da Ayaan Hirsi Ali e pronto: aquilo parecia suficiente para encarar as muçulmanas como um grupo cuja opressão duraria para sempre, caso não houvesse uma intervenção que fosse. Essa lógica soa familiar, não? Ao colocar essas mulheres como vítimas caladas, que nada protestam, reforçamos um processo de silenciamento e recorremos ao white savior complex – já que cabe à figura branca ocidental salvá-las da barbárie da qual nunca se desvencilharam.

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Discutindo Charlie: parte 2 – A Lei do Véu

Se existe uma coisa que eu aprendi nessa vida de militância e estudo é que é sempre uma péssima ideia quando homens determinam como devem se comportar as mulheres, quando ricos decidem o que é o melhor para os pobres, quando brancos falam sobre como se sentem os negros ou quando ocidentais imperialistas julgam ser capazes de sistematizar como pensam outros povos, que em geral foram (ou ainda são) colonizados por estas mesmas pessoas. Por isso, a coisa que mais me chamou a atenção nestes ultimos acontecimentos foi a quantidade enorme de homens brancos europeus que acreditam poder decidir os destinos políticos, opinar sobre como devem se portar, como se sentem e o que pensam as mulheres muçulmanas, geralmente de origem arabe ou africana. Essas decisões e julgamentos são feitos em todas as instâncias, seja quando a França promulga leis que falem sobre como mulheres muçulmanas devem se vestir, seja quando jornalistas publicam charges ou textos falando sobre a opressão que essas mulheres sofrem sem dar voz para que elas falem por si, seja quando comentaristas em blogs, jornais e redes sociais julgam que essas mulheres são apenas vítimas que devem ser salvas a qualquer custo.

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