“Não sou racista, é uma questão de higiene”

racismo israelense

“Não sou racista, mas não quero árabes nas nossas piscinas porque os padrões de higiene são diferentes dos nossos”

 
No dia 28 de julho, Moti Dotan, chefe do conselho regional da Galiléa – parte do atual território israelense que compreende a maior diversidade étnica da região – disse, em entrevista à radio Koi Chai, que árabes não deveriam frequentar as piscinas mantidas pelo conselho, pois a sua cultura e hábitos de higiene podem ofender os padrões judaico-israelenses. Ao longo da entrevista, Dotan reforçou diversas vezes que sua opinião não era racista.
 

Continue lendo

Diplomacia da birra: Israel ameaça o Itamaraty

Dani Dayan - o embaixador dos asse

Dani Dayan – o embaixador dos assentamentos ilegais

No último domingo, dia 27 de dezembro, Israel fez ameaças diplomáticas ao governo brasileiro, caso o Itamaraty persista na recusa à imposição do embaixador Dani Dayan. O Ministério das relações Exteriores afirmou que prefere tratar com um embaixador que não represente a colonização sionista da Palestina, e em resposta a vice-ministra de Relações Exteriores, Tzipi Hotovely, ressaltou que Israel não enviará outro embaixador. Hotovely enfatizou que Israel está lidando com o caso “de forma discreta”, mas que adotará “ferramentas alternativas públicas” para repreender o Brasil. Continue lendo

Uma visita desagradavel

Não eram ainda onze horas de uma manhã de sol no Vale do Jordão. Estava trabalhando com amigos brasileiros e palestinos, consertando o telhado de uma casa no vilarejo de Al-Fasayal, quando o jipe chegou. Eram quatro soldados, todos muito jovens, com exceção de um oficial arrogante de olhos azuis, aparentando estar na casa dos trinta. A postura agressiva e desrespeitosa denotava já alguns anos no cumprimento patriótico da ocupação militar ilegal.

Entraram na casa sem perguntar. A primeira frase que ouvi foi “hey, you, no pictures!” quando viram que eu tinha uma câmera. Olharam a casa, fizeram algumas perguntas’ tiraram fotos e foram embora depois de quinze minutos.

Quando saíram, guardei minha câmera no quarto e escondi o cartão de memoria embaixo de uma ripa de madeira, desconfiando de que a visita tinha sido muito curta.

Palpite confirmado, retornaram após quinze minutos, agora com nove soldados. Mandaram o trabalho parar e ordenaram que nos reunissemos Um dos soldados quis ver minha câmera e me acompanhou ate o quarto, junto com dois outros militares. Mostrei o equipamento e disse que, na pressa, havia deixado o cartão de memoria no meu hostel, em Bethlehem. Disse que era apenas um turista cristão que havia chegado na noite anterior, na esperança de fazer hiking nas montanhas de Jericho.

Os soldados falavam um inglês péssimo (o sistema de ensino israelense se preocupa menos em formar leitores do que lutadores), mas entre os novos cinco militares havia um interprete de português. Era um rapaz argentino, muito jovem e magro, filho de uma judia brasileira, que havia morado algum tempo no Rio de Janeiro antes vir pra Israel se voluntariar para invadir casas de gente inocente no meio do deserto.

Eles revistaram mochilas, armários e gavetas, olharam embaixo das camas e dos colchões. Juntaram todas as bandeiras palestinas que encontraram e amontoaram num canto, junto com cartazes e banners, como se fossem bombas e fuzis. Apontaram com nojo pra os adesivos colados nas paredes e praguejaram em hebraico.

O argentino franzino tentou desesperadamente me alertar para o perigo que eu corria estando lá. Ele me disse “você é maluco de ficar com palestinos, esses caras são muçulmanos radicais, todos fanáticos”, e ficou inconformado quando eu lhe contei que ja tinha tomado cerveja com um deles, e que minha amiga estava lá em cima, trabalhando junto com os homens, vestindo camiseta de manga curta e usando os cabelos soltos.

    – Olha ao seu redor, isso aqui é tudo miséria! Ali, olha ali, tem um burrinho solto, e tem um monte de galinhas andando por ai! Você veio do Brasil, sabe o que é miséria, sabe o que é favela, por que você vem aqui pra essa miséria? Olha pra as casas dessa gente, sente o cheiro, tudo miserável, sujo!

 Ao que eu respondi:

   – Amigo, olha ao seu redor, olha pra essas montanhas, ouve esses pássaros, sente esse vento, olha essa simplicidade. Onde você vê miséria, eu só consigo ver beleza.

Eles juntaram nossos passaportes, fotografaram os documentos e nossos rostos. Disseram que poderíamos ser presos se trabalhassemos com palestinos, “atacando judeus e queimando bandeiras”.

Havia um grande banner na parede, mostrando a foto de um soldado em cima de um tanque de água, apontando o fuzil para mulheres e crianças. O soldado me perguntou por que eu tinha aquela foto se eu não estava contra israel. Eu disse que o banner não era meu. Ele perguntou por que estava na parede se não era meu, ao que eu respondi que a parede também não era minha. Então ele me perguntou por que eu não arrancava a foto da parede se ela não era minha. Eu disse, um tanto contrariado, que no meu pais nós não temos o habito de arancar os fotos que não nos pertencem de paredes que não nos pertencem em casas de gente que nos hospeda de graça.

Os soldados encontraram a câmera de um dos palestinos, mas ela estava sem cartão de memoria.Eles disseram que, se não era nossa, então eles estavam confiscando o equipamento para verificar na base. Perguntamos educadamente se eles poderiam deixar um recibo dizendo que levaram a câmera, para que pudéssemos apresentar para o dono quando ele retornasse e depois recuperar o bem que lhe foi tomado. Eles discutiram um pouco em hebraico e decidiram generosamente não roubar a câmera aquele dia.

Tudo durou pouco menos de uma hora, ao fim da qual eles entraram nos seus jipes blindados, ligaram os motores e esperaram por mais dez minutos. Rondaram a casa e foram embora, levando embora a democracia israelense e nos permitindo curtir a nossa miséria em paz.

                                         *foto do companheiro Nicolas Neves dos Santos

Frio

Cadernos Palestinos – 06/02/2014
Quando palestinos tem suas casas demolidas pelas Forças de Ocupação Israelense,
a Cruz Vermelha, Crescente Vermelho e UNWRA lhes dão tendas.
Foto: Plínio Zúnica  

Noite passada acordei às 4h da manhã. Meus pés estavam gelados, apesar dos três cobertores sobre mim. Levantei pra pegar um par de meias e consultei a temperatura no meu celular: 5° em Bethlehem.
Antes de voltar a deitar, olhando pela janela embaçada, lembrei que, naquela mesma hora, centenas de palestinos se espremiam em gaiolas no checkpoint 300, a poucos quilômetros da minha cama. Me lembrei de quando cheguei a Palestina, em dezembro, duas semanas após a nevasca. As ruas estavam cobertas de gelo, e eu esquentava água no fogão pra escovar os dentes.
Essa semana, mais uma notícia de totura por parte das forças de ocupação israelense chegava aos jornais locais. O Public Committee Against Torture in Israel relatava que, na unidade prisional de Ramla, duzias de prisioneiros – incluindo crianças – eram jogados no meio da noite em gaiolas de ferro, nas quais passavam horas expostos à chuva, vento e neve, até às seis da manhã, quando eram levados diretamente para o seu julgamento, em uma corte militar, onde os vereditos possíveis eram: prisão “administrativa”; passar mais tempo onde estavam sendo interrogados; ou a libertação mediante fiança e multas.
Agora é fevereiro, e o tempo esta muito melhor. Já não há uma camada de gelo sobre as calçadas, e escovo os dentes com a água que sai direto da torneira. A pior parte do inverno já passou, e esta noite dormi apenas com uma calça de moletom, uma blusa térmica, um gorro de lã, três cobertores e, ainda assim, acordei no meio da madrugada pra colocar meias. Meus dedos doem de frio enquanto digito. Entre uma frase e outra, aqueço minhas mãos entrelaçadas numa caneca de chá.
Penso em como as casas palestinas são mais frias do lado de dentro que do lado de fora. É uma arquitetura inteligente pra combater o calor infernal do verão, mas como só estive aqui em invernos, amaldiçoei muitas vezes essa idéia. Então penso nos milhares de palestinos que tem suas casas demolidas pelo exército e vão morar em tendas. Não imagino quantos cobertores são necessários para sobreviver numa tenda durante uma nevasca.
Essa manhã, quando me levantei pra escrever esse post, li que a Cruz Vermelha anunciou que não entregará mais tendas para os palestinos desabrigados. Eles alegam que, infelizmente, não há propósito em entregar abrigos aos palestinos, uma vez que o exercito destrói as tendas um ou dois dias após a entrega. Os militares dizem que destróem tendas de pano pelo mesmo motivo que demolem casas: elas são montadas ilegalmente, sem permissão do governo, sem documentos e carimbos que concedam o direito de uma família dormir coberta por uma lona fina em meio ao pior inverno do século, quando a neve acumulada atingiu quarenta centrimetros de altura nas ruas de Hebron. Então me lembrei das familias que se abrigam em cavernas nas montanhas, após suas casas serem demolidas, após suas barracas de lona serem rasgadas e terem as ferragens retorcidas por soldados vestindo uniformes térmicos. E então me lembrei das cavernas que vi no vale do Jordão, com suas entradas fechadas com arame farpado e placas. É, também, ilegal morar em cavernas sem a concessão  de burocratas israelenses. Ainda é permitido morrer congelado, mas é incerto o direito de ser enterrado na sua terra.
Não consigo imaginar o que seja passar a madrugada sob chuva e neve em uma gaiola de ferro no ápice do inverno, após tantas sessões de interrogatório e tortura quanto o tempo tiver permitido. Não consigo imaginar o que seja viver em barracas de lona no deserto. Não consigo imaginar o que seja viver em cavernas quando, alguns quilômetros além, casas de colonos tem tapetes macios e grandes lareiras coloniais.
Então penso que, na minha cidade, os expropriados morrem de frio em bancos de praça, e a Cruz Vermelha nunca cogitou lhes entregar tendas de lona e kits de sobrevivência.

Então tremo, mas não de frio.

Quando as tendas são destruídas pelo Exército Sionista, os palestinos buscam abrigo em cavernas.
Então, em nome da “segurança do estado”, as Forças de Ocupação lacram as cavernas.
Foto: Plínio Zúnica