Rafeef Ziada – Todos os tons de fúria

 
 
Rafeef Ziadah é uma poeta, acadêmica e ativista política. Refugiada palestina, nasceu no Líbano, após seus pais serem expulsos de seu país pelos sionistas em 1948. Algumas de suas primeiras lembranças são do cerco e bombardeio de Beirute, em 1982.
 
Rafeef começou a escrever poesia após uma performance em um protesto pacífico, durante o qual um homem a chutou no estomâgo e disse “você merece ser estuprada antes que tenha seus filhos terroristas”.

Continue lendo

Expresso Cairo-SP

Dormi
Num ônibus de volta pra casa e
Sonhei
Com o ônibus de volta pra casa
E vi:

Caído na calçada,
Calçando as chagas
E os saberes da chibata,
Das chaves e do choque
E do bom senso do cidadão
De bem
Um anjo de jornal
Da ceia de Buñuel
Senil como um fuzil
Batizado em etanol
Vomitou um Vade Mecum
E ordenou-me: Lê!
E eu li a Palavra
Nos pixos hieroglifos coloridos pregando nas paredes cinzas dos templos de pó e fome da minha cidade
E os sermões
Nas buzinas afinadas no tom das pressas afiadas nas línguas apressadas das ânsias da minha cidade
E peregrinei
Nos ossos secos que sustém os brilhos e cores e espelhos e ouros e açúcares e louros da minha cidade
Fiz abluções
No suor e cerveja das bigornas e martelos sangrando o pão e o vinho nosso de cada dia da minha cidade
E vi a luz
Nos fogos nos corpos de jovens tunisianos e crianças de Gaza em esquinas escuras da minha cidade
E vaguei no deserto
Nas primaveras secas pela sede de ser livre pra eleger ícones ocos a ditar as vontades da minha cidade
Acordei:

Com uma ordem de metal
Numa língua de babel:
Armar um riso servil
Vestir jaqueta e cachecol
Desembarcar um a um

E ordenou-me: Shhhhhi!
Mais um checkpoint
Mais uma batida
Mais um enquadro
Para a sua segurança
Na noite sem lua
Num posto militar
Os olhos pregados na rua
O cordeiro pregado no altar
Enfileirar malas no chão
acorrentado à farda o cão
Posto a farejar:
Bombas
Passaportes
Pedras
Molotovs
Poemas
E fracos de Pinho-Sol
Inconsolável
Já não sabia
Qual cidade
Era a minha

Oslo III

Desato o tabaco do saco de couro e enrolo um cigarro.

Desenrolo labirintos
salamaleikis e bordados
esparramados em tapetes
nas paredes
nos ouvidos
e no chão.

Arabescos de fumaça e brasa nos narguilés
valsa de derbaki e alaúde na quietude do deserto contido no sorriso
palestino
silencia na saudade da cidade que desconhece.

Enquanto isso, uma nova colonia se anuncia no horizonte

E os homens de terno
E os jornais
E os rolos de arame farpado
E os papéis oficiais
E os rolos compressores
E as rodas dentadas dos tanques de guerra comendo o chão de pedra
E os meninos perdidos em pedras e rezas e valas na terra
E a terra perdida em guerras e arames e jornais e ternos e papéis carimbados, protocolados e assinados pelas grandes nações civilizadas
Enroscam
E rasgam
E calam

E assim, fumamos,
esperamos
e a esperança esfumaça
em fogueiras de vaidades
e acordos de paz