Huda Shaarawi: a primeira feminista do Egito

Hda Sharawi

Huda Shaarawi (23 de junho de 1879 – 12 de Dezembro de 1947) foi uma pioneira no feminismo egípcio e influenciou mulheres em todo o mundo árabe. Nascida em uma família de alta classe, Huda foi criada dentro do sistema de haréns, espaços de convívio exclusivo de mulheres em uma sociedade profundamente patriarcal e segregacionista. Em seu livro The Harem Years, publicado em 1897, Huda conta detalhes desta época, bem como as suas percepções sobre como a sociedade egípcia negava direitos civis e educação às mulheres.

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O papel dos corpos femininos na revolução do Egito

*Texto de Vanessa Bordin
 

Grafites sobre as ativistas feministas egípcias Samira Ibrahim e Alia el Mahdy

Muito tem sido escrito e discutido ultimamente sobre ‘a mulher muçulmana’. Apesar disso, a individualidade e capacidade de agência dessas mulheres não é facilmente reconhecida. É essencial que fique claro que meu objetivo, através deste texto, é fazer uma breve análise, do meu ponto de vista, sobre a presença do corpo da mulher na esfera pública, usando o contexto do Egito. Minha tentativa não é de representar a voz dessas mulheres, muito menos generalizá-las. É preciso saber, portanto, que a situação das mulheres precisa ser analisada dentro de um contexto geográfico específico, considerando diferenças de classe, etnia, religião e orientação sexual, sem deixar de lado fatores políticos, econômicos, sociais e culturais, o que possibilita uma análise contemplativa, mas que, simultaneamente foge de generalizações e essencialismos que tendem a ocultar as diversidades, complexidades e a capacidade de agência dessas mulheres.

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Não, nós não somos as salvadoras das muçulmanas – por Priscila Bellini

Olhando assim, parece uma constatação óbvia. Entretanto, não faltam exemplos de como as feministas ocidentais encaram a vivência de mulheres muçulmanas – em especial, as que estão no “Oriente”, e mais especificamente as mulheres árabes. E falo isso com conhecimento de causa, visto que caí nessa muitas vezes. Eu me lembro claramente de ler, quando tinha meus 12 anos, os relatos sobre o quão opressor era o lado de lá, o quanto as moças estavam rendidas e quietas. Naquela época, li os textos da Ayaan Hirsi Ali e pronto: aquilo parecia suficiente para encarar as muçulmanas como um grupo cuja opressão duraria para sempre, caso não houvesse uma intervenção que fosse. Essa lógica soa familiar, não? Ao colocar essas mulheres como vítimas caladas, que nada protestam, reforçamos um processo de silenciamento e recorremos ao white savior complex – já que cabe à figura branca ocidental salvá-las da barbárie da qual nunca se desvencilharam.

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Descolonizando ao(s) quadrado(s): a super-heroína de hijabi.

Texto de Júlia Tibiriçá
 
Não faltam referências ou piadas hollywoodianas para demonstrar o quanto (e não é pouco) a grande indústria das Histórias em Quadrinhos de Super-Heróis reproduz, desde sempre, preconceitos e desigualdades, pautadas não por acaso, pelas maneiras-de-agir-e-pensar consolidadas pelo Ocidente excessivamente ocidental dos norte-americanos. Há mais de setenta anos, o primeiro de muitos Super-Homens inaugura a era de ouro dos quadrinhos e das personagens que compreenderam o espírito de seu tempo, em particular no que se refere à propaganda neoliberal, às entrelinhas orientalistas e ao esforço ímpar de garantir que as mulheres – até quando fossem “super” – estivessem em seus históricos e devidos lugares.

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Uma reflexão tardia sobre Eu matei Sherazade

Texto de Monise Martinez*:
Quando comecei o meu trabalho de investigação sobre a publicação de autobiografias e biografias de mulheres árabes e/ou muçulmanas no mercado editorial português, me deparei com um livro que, apesar de não ter uma edição portuguesa, havia sido publicado em alguns outros países europeus em que edições das obras que eu andava selecionando para análise eram também frequentes. O livro era o Eu matei Sherazade – confissões de uma árabe enfurecida, uma espécie de autobiografia escrita pela jornalista libanesa Joumana Haddad, publicada originalmente em 2010.

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Quem é a mulher árabe?

 

Por Nathalia Nahas

No dia 8 de Março é celebrado ao redor do mundo o Dia Internacional da Mulher. O dia é observado desde inícios do século XX, época que registrava uma forte expansão no crescimento populacional e turbulência social no mundo industrializado. Mulheres e homens inicialmente tomaram as ruas da Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça para demandarem mais direitos econômicos, sociais e políticos às mulheres. Grandes agitações e debates críticos ocorriam entre elas. Opressão e desigualdade as estimulavam a se tornarem mais vocais e ativas na campanha para a mudança.  Assim, elas marcharam exigindo redução da jornada de trabalho, melhores salários e direito ao voto. Representaram sindicatos, partidos socialistas e clubes de trabalhadoras, mas também realizaram comícios em campanha contra a guerra e contra a fome. Continue lendo

Discutindo Charlie: parte 2 – A Lei do Véu

Se existe uma coisa que eu aprendi nessa vida de militância e estudo é que é sempre uma péssima ideia quando homens determinam como devem se comportar as mulheres, quando ricos decidem o que é o melhor para os pobres, quando brancos falam sobre como se sentem os negros ou quando ocidentais imperialistas julgam ser capazes de sistematizar como pensam outros povos, que em geral foram (ou ainda são) colonizados por estas mesmas pessoas. Por isso, a coisa que mais me chamou a atenção nestes ultimos acontecimentos foi a quantidade enorme de homens brancos europeus que acreditam poder decidir os destinos políticos, opinar sobre como devem se portar, como se sentem e o que pensam as mulheres muçulmanas, geralmente de origem arabe ou africana. Essas decisões e julgamentos são feitos em todas as instâncias, seja quando a França promulga leis que falem sobre como mulheres muçulmanas devem se vestir, seja quando jornalistas publicam charges ou textos falando sobre a opressão que essas mulheres sofrem sem dar voz para que elas falem por si, seja quando comentaristas em blogs, jornais e redes sociais julgam que essas mulheres são apenas vítimas que devem ser salvas a qualquer custo.

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