Expresso Cairo-SP

Dormi
Num ônibus de volta pra casa e
Sonhei
Com o ônibus de volta pra casa
E vi:

Caído na calçada,
Calçando as chagas
E os saberes da chibata,
Das chaves e do choque
E do bom senso do cidadão
De bem
Um anjo de jornal
Da ceia de Buñuel
Senil como um fuzil
Batizado em etanol
Vomitou um Vade Mecum
E ordenou-me: Lê!
E eu li a Palavra
Nos pixos hieroglifos coloridos pregando nas paredes cinzas dos templos de pó e fome da minha cidade
E os sermões
Nas buzinas afinadas no tom das pressas afiadas nas línguas apressadas das ânsias da minha cidade
E peregrinei
Nos ossos secos que sustém os brilhos e cores e espelhos e ouros e açúcares e louros da minha cidade
Fiz abluções
No suor e cerveja das bigornas e martelos sangrando o pão e o vinho nosso de cada dia da minha cidade
E vi a luz
Nos fogos nos corpos de jovens tunisianos e crianças de Gaza em esquinas escuras da minha cidade
E vaguei no deserto
Nas primaveras secas pela sede de ser livre pra eleger ícones ocos a ditar as vontades da minha cidade
Acordei:

Com uma ordem de metal
Numa língua de babel:
Armar um riso servil
Vestir jaqueta e cachecol
Desembarcar um a um

E ordenou-me: Shhhhhi!
Mais um checkpoint
Mais uma batida
Mais um enquadro
Para a sua segurança
Na noite sem lua
Num posto militar
Os olhos pregados na rua
O cordeiro pregado no altar
Enfileirar malas no chão
acorrentado à farda o cão
Posto a farejar:
Bombas
Passaportes
Pedras
Molotovs
Poemas
E fracos de Pinho-Sol
Inconsolável
Já não sabia
Qual cidade
Era a minha

Um grão entre dois desertos

Talvez seja a sombra de pirâmides e faraós, tanto passado e tanta imortalidade, que dá um peso diferente ao Egito.Talvez seja a multidão, os milhares de carros e motos, pessoas na rua vendendo pão e bugigangas aos observadores da vida desocupados sentados nas calçadas fumando seus narguilés.Talvez seja só a impressão de um estrangeiro colonizado por preconceitos e utopias que não entende a língua e a vida dessa gente e desse lugar.
No Cairo, as urgências se dissolvem em cafés e narguilés, homens sentados solitários soltando fumaça e vendo a vida que passa sem passar, jogando gamão e comendo com a mão o pão com feijão e fumaça das motos que passam e voltam apressadas nas vielas apertadas em que se espremem as esperanças e esperas de um povo que ri e se angustia com uma revolução que deu manchetes nos jornais, poemas e sangue nas praças e mesquitas e terminou exatamente onde começou.
Talvez seja só a confusão de um utopista com a constatação do óbvio: o Egito não é a Palestina.
No Cairo, dissolvo-me na multidão. Aqui não sou um ativista, uma faísca ou rota de fuga pra mensagens e histórias que batem de frente com muros e militares sionistas.
Na Palestina havia um porquê em cada manhã. Lá as pessoas viam, nas câmeras e cadernos estrangeiros um caminho por onde contrabandear sua voz e sua história. Aqui sou só um estudante gringo com alguns dólares no bolso pra perder em papiros e miniaturas de esfinges.
Não há, na Palestina, monumentos e museus que lutem contra o tempo e a invisibilidade de um sistema colonial. As pedras que aqui se empilham em pirâmides lá são escombros cobrindo o chão sob buldozzers e botas que marcham, matam e negam. Por mais que Holliwod tente embranquecer e europeizar os Reis e deuses africanos do Nilo, ninguém tentará negar os milênios que se acumulam nas paisagens e historiografia egípcia. Enquanto isso, o passado palestino sobrevive nas vozes do presente. As histórias, poemas e canções constróem e reconstróem uma memória roubada e escondida. Palestinos precisam reconstruir dia após dia seus ancestrais da mesma maneira que fazem com as casas destruidas pelo exército israelense. Talvez por isso o tempo corra diferente aqui. Lá, o tempo é feito de urgências, e cada novo assentamento, cada novo pronunciamento racista de um governo colonial, cada novo metro de muro sufoca a ideia de futuro, e cada dia é uma urgência real. No Egito o tempo é vasto, e existe muito passado pra que se tema pelo fim do futuro.
No Cairo é fácil sentar e assistir o jogo de futebol de hoje esperando o jogo de amanhã. A certeza do amanhã não se oblitera pelos tanques de guerra cercando a Praça Libertação.
As pedras palestinas voam, enquanto que as egípcias permanecem. Lá, as pedras servem ao povo anônimo,rostos escondidos sob lenços. Aqui, as pedras servem à turistas, se amontoam em túmulos de reis de rostos estampados em camisetas e cartazes de agências de viagem.
Talvez seja a clareza do inimigo que torna a luta da Palestina tão evidente. Aqui, o opressor não vêm de fora, não fala outra língua, não declara seu ódio e racismo em tribunas da ONU com anuência da CNN e dos donos do mundo. Aqui, revolucionário e repressor se confundem na rua, no rosto, no nome, na família e no discurso de um mesmo amor pela mesma terra com pontos de vista diferentes.
O tempo é preguiçoso, grande e lento no Egito, majestoso e vasto demais pra caber nos anseios de uma juventude perdida entre revolução e tradição. Na Palestina o tempo emagrece nas greves de fome, nas prisões, bombardeios e esmolas de ONG’s ineficientes e ativistas ineficientes que escrevem em suas pranchetas, teses acadêmicas e blogs inúteis.
No Egito, a paciência é uma virtude. Na Palestina, é uma fraqueza.

Ou talvez seja só eu que não saiba lidar com o deserto de tantos ontens e amanhãs.    

Oslo III

Desato o tabaco do saco de couro e enrolo um cigarro.

Desenrolo labirintos
salamaleikis e bordados
esparramados em tapetes
nas paredes
nos ouvidos
e no chão.

Arabescos de fumaça e brasa nos narguilés
valsa de derbaki e alaúde na quietude do deserto contido no sorriso
palestino
silencia na saudade da cidade que desconhece.

Enquanto isso, uma nova colonia se anuncia no horizonte

E os homens de terno
E os jornais
E os rolos de arame farpado
E os papéis oficiais
E os rolos compressores
E as rodas dentadas dos tanques de guerra comendo o chão de pedra
E os meninos perdidos em pedras e rezas e valas na terra
E a terra perdida em guerras e arames e jornais e ternos e papéis carimbados, protocolados e assinados pelas grandes nações civilizadas
Enroscam
E rasgam
E calam

E assim, fumamos,
esperamos
e a esperança esfumaça
em fogueiras de vaidades
e acordos de paz

Uma visita desagradavel

Não eram ainda onze horas de uma manhã de sol no Vale do Jordão. Estava trabalhando com amigos brasileiros e palestinos, consertando o telhado de uma casa no vilarejo de Al-Fasayal, quando o jipe chegou. Eram quatro soldados, todos muito jovens, com exceção de um oficial arrogante de olhos azuis, aparentando estar na casa dos trinta. A postura agressiva e desrespeitosa denotava já alguns anos no cumprimento patriótico da ocupação militar ilegal.

Entraram na casa sem perguntar. A primeira frase que ouvi foi “hey, you, no pictures!” quando viram que eu tinha uma câmera. Olharam a casa, fizeram algumas perguntas’ tiraram fotos e foram embora depois de quinze minutos.

Quando saíram, guardei minha câmera no quarto e escondi o cartão de memoria embaixo de uma ripa de madeira, desconfiando de que a visita tinha sido muito curta.

Palpite confirmado, retornaram após quinze minutos, agora com nove soldados. Mandaram o trabalho parar e ordenaram que nos reunissemos Um dos soldados quis ver minha câmera e me acompanhou ate o quarto, junto com dois outros militares. Mostrei o equipamento e disse que, na pressa, havia deixado o cartão de memoria no meu hostel, em Bethlehem. Disse que era apenas um turista cristão que havia chegado na noite anterior, na esperança de fazer hiking nas montanhas de Jericho.

Os soldados falavam um inglês péssimo (o sistema de ensino israelense se preocupa menos em formar leitores do que lutadores), mas entre os novos cinco militares havia um interprete de português. Era um rapaz argentino, muito jovem e magro, filho de uma judia brasileira, que havia morado algum tempo no Rio de Janeiro antes vir pra Israel se voluntariar para invadir casas de gente inocente no meio do deserto.

Eles revistaram mochilas, armários e gavetas, olharam embaixo das camas e dos colchões. Juntaram todas as bandeiras palestinas que encontraram e amontoaram num canto, junto com cartazes e banners, como se fossem bombas e fuzis. Apontaram com nojo pra os adesivos colados nas paredes e praguejaram em hebraico.

O argentino franzino tentou desesperadamente me alertar para o perigo que eu corria estando lá. Ele me disse “você é maluco de ficar com palestinos, esses caras são muçulmanos radicais, todos fanáticos”, e ficou inconformado quando eu lhe contei que ja tinha tomado cerveja com um deles, e que minha amiga estava lá em cima, trabalhando junto com os homens, vestindo camiseta de manga curta e usando os cabelos soltos.

    – Olha ao seu redor, isso aqui é tudo miséria! Ali, olha ali, tem um burrinho solto, e tem um monte de galinhas andando por ai! Você veio do Brasil, sabe o que é miséria, sabe o que é favela, por que você vem aqui pra essa miséria? Olha pra as casas dessa gente, sente o cheiro, tudo miserável, sujo!

 Ao que eu respondi:

   – Amigo, olha ao seu redor, olha pra essas montanhas, ouve esses pássaros, sente esse vento, olha essa simplicidade. Onde você vê miséria, eu só consigo ver beleza.

Eles juntaram nossos passaportes, fotografaram os documentos e nossos rostos. Disseram que poderíamos ser presos se trabalhassemos com palestinos, “atacando judeus e queimando bandeiras”.

Havia um grande banner na parede, mostrando a foto de um soldado em cima de um tanque de água, apontando o fuzil para mulheres e crianças. O soldado me perguntou por que eu tinha aquela foto se eu não estava contra israel. Eu disse que o banner não era meu. Ele perguntou por que estava na parede se não era meu, ao que eu respondi que a parede também não era minha. Então ele me perguntou por que eu não arrancava a foto da parede se ela não era minha. Eu disse, um tanto contrariado, que no meu pais nós não temos o habito de arancar os fotos que não nos pertencem de paredes que não nos pertencem em casas de gente que nos hospeda de graça.

Os soldados encontraram a câmera de um dos palestinos, mas ela estava sem cartão de memoria.Eles disseram que, se não era nossa, então eles estavam confiscando o equipamento para verificar na base. Perguntamos educadamente se eles poderiam deixar um recibo dizendo que levaram a câmera, para que pudéssemos apresentar para o dono quando ele retornasse e depois recuperar o bem que lhe foi tomado. Eles discutiram um pouco em hebraico e decidiram generosamente não roubar a câmera aquele dia.

Tudo durou pouco menos de uma hora, ao fim da qual eles entraram nos seus jipes blindados, ligaram os motores e esperaram por mais dez minutos. Rondaram a casa e foram embora, levando embora a democracia israelense e nos permitindo curtir a nossa miséria em paz.

                                         *foto do companheiro Nicolas Neves dos Santos

O escorpião das horas

Em arabe, os ponteiros do relógio chamam-se “aqrab al-saat”, o escorpião das horas. A contagem do tempo como a ferroada que se aproxima, veneno que arde e mata por dentro, correndo corrente sanguínea escorrendo sub-repticianamente na areia do deserto de uma ampulheta.

Talvez essa seja a razão de a relação com o tempo ser tao diferente aqui. Os minutos não estão à venda, não tem post-its amarelos pendendo pelas bordas.

Os escritórios fecham às quatro horas da tarde, como que sabendo não valerem a pena os papéis carimbados diante do pivilegio de chegar em casa a tempo de dar um beijo nas crianças, ou de fumar narguile, jogar baralho e assistir um jogo do Barcelona com os amigos em um café qualquer.

Se tomo um taxi, o motorista toma o caminho mais longo, para pra cumprimentar um amigo, volta com café e biscoitos pra me oferecer. De graça, sempre.

Se dou bom dia para o vizinho de baixo, ele me puxa pelo braço pra tomar chá, mostrar as fotos de familia, falar de literatura, do tempo frio, do jornal de ontem, dos tempos que se foram e já não voltam mais. Quando o vicio da pressa me toca cedo de casa, preciso me esgueirar pra nao ser sequestrado pela gentileza alheia.

A urgência do capitalismo predatório não colonizou as mentes que germinam em terras colonizadas. Comprar souvenirs na cidade velha implica sentar, barganhar, contar piadas. Historias valem mais do que dinheiro, e quanto melhor a sua historia, menor o preço da bugiganga. Pechincha-se prosa.

Cinco vezes por dia, o canto que ecoa os templos canta o tempo de esquecer caixas registradoras, carteiras de identidade, muros e mortes. Mãos largam pedras e teclados e arados. Homens ajoelhados sobre tapetes, casacos, concreto, curvam cabeças na mesma direção e, em silêncio, são um.

Sempre ha tempo pra mais um café, olá como vai, e o brasil, e aquela gripe, leve uns limões, colhi ontem, são deliciosos, ahlam wa sahlam, leve um casaco que vai esfriar, ahlam wa sahlam pra você também.

De paciência se destila o soro que atrasa o relógio.

Frio

Cadernos Palestinos – 06/02/2014
Quando palestinos tem suas casas demolidas pelas Forças de Ocupação Israelense,
a Cruz Vermelha, Crescente Vermelho e UNWRA lhes dão tendas.
Foto: Plínio Zúnica  

Noite passada acordei às 4h da manhã. Meus pés estavam gelados, apesar dos três cobertores sobre mim. Levantei pra pegar um par de meias e consultei a temperatura no meu celular: 5° em Bethlehem.
Antes de voltar a deitar, olhando pela janela embaçada, lembrei que, naquela mesma hora, centenas de palestinos se espremiam em gaiolas no checkpoint 300, a poucos quilômetros da minha cama. Me lembrei de quando cheguei a Palestina, em dezembro, duas semanas após a nevasca. As ruas estavam cobertas de gelo, e eu esquentava água no fogão pra escovar os dentes.
Essa semana, mais uma notícia de totura por parte das forças de ocupação israelense chegava aos jornais locais. O Public Committee Against Torture in Israel relatava que, na unidade prisional de Ramla, duzias de prisioneiros – incluindo crianças – eram jogados no meio da noite em gaiolas de ferro, nas quais passavam horas expostos à chuva, vento e neve, até às seis da manhã, quando eram levados diretamente para o seu julgamento, em uma corte militar, onde os vereditos possíveis eram: prisão “administrativa”; passar mais tempo onde estavam sendo interrogados; ou a libertação mediante fiança e multas.
Agora é fevereiro, e o tempo esta muito melhor. Já não há uma camada de gelo sobre as calçadas, e escovo os dentes com a água que sai direto da torneira. A pior parte do inverno já passou, e esta noite dormi apenas com uma calça de moletom, uma blusa térmica, um gorro de lã, três cobertores e, ainda assim, acordei no meio da madrugada pra colocar meias. Meus dedos doem de frio enquanto digito. Entre uma frase e outra, aqueço minhas mãos entrelaçadas numa caneca de chá.
Penso em como as casas palestinas são mais frias do lado de dentro que do lado de fora. É uma arquitetura inteligente pra combater o calor infernal do verão, mas como só estive aqui em invernos, amaldiçoei muitas vezes essa idéia. Então penso nos milhares de palestinos que tem suas casas demolidas pelo exército e vão morar em tendas. Não imagino quantos cobertores são necessários para sobreviver numa tenda durante uma nevasca.
Essa manhã, quando me levantei pra escrever esse post, li que a Cruz Vermelha anunciou que não entregará mais tendas para os palestinos desabrigados. Eles alegam que, infelizmente, não há propósito em entregar abrigos aos palestinos, uma vez que o exercito destrói as tendas um ou dois dias após a entrega. Os militares dizem que destróem tendas de pano pelo mesmo motivo que demolem casas: elas são montadas ilegalmente, sem permissão do governo, sem documentos e carimbos que concedam o direito de uma família dormir coberta por uma lona fina em meio ao pior inverno do século, quando a neve acumulada atingiu quarenta centrimetros de altura nas ruas de Hebron. Então me lembrei das familias que se abrigam em cavernas nas montanhas, após suas casas serem demolidas, após suas barracas de lona serem rasgadas e terem as ferragens retorcidas por soldados vestindo uniformes térmicos. E então me lembrei das cavernas que vi no vale do Jordão, com suas entradas fechadas com arame farpado e placas. É, também, ilegal morar em cavernas sem a concessão  de burocratas israelenses. Ainda é permitido morrer congelado, mas é incerto o direito de ser enterrado na sua terra.
Não consigo imaginar o que seja passar a madrugada sob chuva e neve em uma gaiola de ferro no ápice do inverno, após tantas sessões de interrogatório e tortura quanto o tempo tiver permitido. Não consigo imaginar o que seja viver em barracas de lona no deserto. Não consigo imaginar o que seja viver em cavernas quando, alguns quilômetros além, casas de colonos tem tapetes macios e grandes lareiras coloniais.
Então penso que, na minha cidade, os expropriados morrem de frio em bancos de praça, e a Cruz Vermelha nunca cogitou lhes entregar tendas de lona e kits de sobrevivência.

Então tremo, mas não de frio.

Quando as tendas são destruídas pelo Exército Sionista, os palestinos buscam abrigo em cavernas.
Então, em nome da “segurança do estado”, as Forças de Ocupação lacram as cavernas.
Foto: Plínio Zúnica

Conversando com um taxista, contei os locais por onde viajei. Haifa, Nazareth, Jerusalém, Hebron, vale do Jordão, Nablus, Jenin e diversas vilas por toda a Palestina. “Você conhece esta terra muito bem”, ele me disse. Comecei a falar sobre como eu achava que a única maneira de realmente entender a palestina, pra um estrangeiro, é conversar com o seu povo e ver de perto o que os documentarios e filmes não mostram. percebi que ele ficou incomodado e parei. Seguiu-se um minuto de silênco, ao fim do qual ele me disse, emocionado “Você conhece a minha terra melhor do que eu”.

Não posso imaginar o que seja viver em claustro por toda uma vida. Um palestino pode comprar um carro, encher o tanque de combustivel, mas não pode seguir por duas horas em uma estrada sem bater em um muro de oito metros de altura. e precisar voltar. Rodar em circulos por toda uma vida, como ratos num labirinto. Andar por uma estrada e se deparar um com checkpoint flutuante, uma barreira surpresa que o fará parar, ter seu carro revistado, seus documentos checados, sua identidade questionada.
Por três vezes nas ultimas três semanas estive em um ônibus de turismo cheio de brasileiros que foi parado em checkpoints. Descemos, tivemos nossas bagagens revistadas, nossos passaportes olhados com desconfiança. Precisei camuflar cartões de visita palestinos para evitar interrogatórios mais demorados. pessoas do meu grupo foram chamadas aleatoriamente para uma sala privada.
Toda vez que estou em um ônibus em direção á Jerusalém temos que parar em um checkpoint. Todos os palestinos são obrigados a descer para serem checados. Estrangeiros (se forem brancos) não precisam descer, mas desço assim mesmo. Soldados entram no onibus, checam seu passaporte, perguntam de onde você veio. 
Todas as manhãs centenas de palestinos que possuem vistos de trabalho cruzam checkpoints para limpar banheiros de israelenses, coletar lixo, servir como garçons. São enfileirados em um corredor claustrofóbico, passam por uma grade, atravessam um grande pátio vazio cercados por torres de vigilância com atiradores nas cabines, passam por outra grade de acesso, tem suas bagagens checadas, passam por detetores de metal, apresentam seus documentos, passam por um terceiro portão e chegam do outro lado, onde são recebidos por cartazes de famílias européias felizes brincando na praia com dizeres de “bem vindos à Israel”.
O motorista do taxi que eu tomei não tem a sorte de poder atravessar postos de controle e ser humilhado diariamente. Ele precisa se contentar com as áreas cercadas por soldados e muros. nasceu confinado, e provavelmente morrerá confinado.

Feliz ano velho

Primeiro dia do ano novo. Voltando pra casa no ultimo ônibus, desci no checkpoint entre Jerusalem e Bethlehem. Uma familia palestina desceu e atravessou a barreira logo à minha frente. Pai, mãe e dois filhos, que não teriam mais do que cinco e sete anos. O mais velho corria, espivetado, e o mais novo não acompanhava o ritmo. Atravessaram a primeira barreira, entraram no patio intermediário e se viram no enorme espaço aberto normalmente abarrotado. O filho mais velho, que se chamava Nicolas, de acordo com os gritos da mãe, não sossegava. Então o pai correu, colocou o mais novo nos ombros e disparou à galope, brincando com os dois pequenos naquela imensidão murada, sob a vigília das torres e dos soldados entediados com seus rifles e jogos de celular.

Por um instante me esqueci das grades e fardas ao nosso redor. Ali, ao meu lado, eu via uma familia comum, um parque, um fim de tarde num começo de ano simples e tranquilo. 

Talvez o pai esteja calejado o suficiente pra esquecer e se permitir ser alegre ali, ou talvez seja um ato benevolente de quem quer prolongar a inocência de duas crianças que nasceram sem o direito de ser inocentes. 

Sorri, mas depois não sabia se havia espaço pra sorrir. Talvez aquele pai tenha a mesma duvida que eu.