Sobre poços e ideias

Eu sempre paro de escrever pelas mesmas razões que começo: é perigoso estar muito tempo sozinho com seus pensamentos.
Idéias são coisas selvagens que se fagocitam e metastaseam, criam organismos complexos, ecossistemas, cidades, monumentos e catástrofes naturais no universo particular de cada um de nós. Algumas, é possível domesticar, estudar, dissecar e catalogar; outras, aprender os seus idiomas e costumes para contemplar mitologias e novas antigas dúvidas; e há as predadoras, bactérias devoradoras de espírito, das quais a defesa é a amputação seguida por cauterização em fogo muito, muito lento. O papel e a tinta são laboratórios onde se pode analisar lâminas de ideias em estado ideal, e o mundo lá fora é essa infinita Ilha de Galápagos. As vezes, no afã de Fausto, ocorrem vazamentos toxicológicos, ou uma tartaruga anciã ataca e devora um naturalista distraído e, quando isso acontece, entramos em quarentena. 
Estar no Cairo é uma coisa confusa. Suponho que algumas pessoas sejam capazes de tirar os dois pés do chão e caminhar com passo firme sobre resoluções sólidas, mas eu mantive um pé aqui e outro aí, e assim fiquei parado, observando e tomando nota de um Nilo de devir a passar por entre as minhas pernas. De casa, as pessoas me mandam notícias sobre como estão desabando, perdidas nesse turbilhão de violência e retrocesso que come a razão e a humanidade do meu povo. Aqui, a mudez, o medo e o consentir envergonhado, ditaduras e dogmas encrustrados na esperança hesitante de que amanhã será melhor. Estar sem estar é ser espectro, espectador, soprando  e colhendo ecos.
Então parei de escrever, e fiquei algum tempo no escuro, catando e catalogando ecos em pedaços de passado e indícios de talvez, como borboletas espetadas num pedaço de cortiça.
Amanhã volto ao Brasil, e desconfio que algumas coisas vão começar a se esclarecer, e conforme as ideias forem me aceitando entre elas, conforme  as histórias emergirem da massa de cacofonia, colocarei novamente o bisturi no papel. É perigoso, vocês sabem, ficar muito tempo sozinho com os próprios pensamentos.
Meu erro aqui foi tentar forçar o caminho sem estrutura.
Quando escolhi o nome do blog, optei pelo plural porque não pensava apenas no que estudava. Pensava nas minhas próprias descolonizações, o processo de desconstruir minhas seguranças e certezas, compreender e combater meus preconceitos e privilégios, sobrepor as peças que encontrava nessas viagens e nas coisas que aprendi aqui, lá e aí, e compartilhar esse processo pra, talvez, ajudar mais alguém a domesticar as próprias ideias. Então, voltando aos eixos, quero retomar esse blog, daquele jeito que ele deveria ter sido.
Amanhã é um recomeço pra mim, um tipo de ano novo, e, sabendo que amanhã o mundo continuará o mesmo, e que as minhas voltas e reviravoltas não afetam a rotação dos astros, o fluxo das avenidas ou o café com pão de mais joão ninguém, é de bom agouro espetar esse momento, borboleta rara, neste pedaço de cortiça. 
 
Atiramos moedas da sorte em poços sem fundo desejando um gole de esperança entre a seca e a sede de uma estrada ou outra.

Um grão entre dois desertos

Talvez seja a sombra de pirâmides e faraós, tanto passado e tanta imortalidade, que dá um peso diferente ao Egito.Talvez seja a multidão, os milhares de carros e motos, pessoas na rua vendendo pão e bugigangas aos observadores da vida desocupados sentados nas calçadas fumando seus narguilés.Talvez seja só a impressão de um estrangeiro colonizado por preconceitos e utopias que não entende a língua e a vida dessa gente e desse lugar.
No Cairo, as urgências se dissolvem em cafés e narguilés, homens sentados solitários soltando fumaça e vendo a vida que passa sem passar, jogando gamão e comendo com a mão o pão com feijão e fumaça das motos que passam e voltam apressadas nas vielas apertadas em que se espremem as esperanças e esperas de um povo que ri e se angustia com uma revolução que deu manchetes nos jornais, poemas e sangue nas praças e mesquitas e terminou exatamente onde começou.
Talvez seja só a confusão de um utopista com a constatação do óbvio: o Egito não é a Palestina.
No Cairo, dissolvo-me na multidão. Aqui não sou um ativista, uma faísca ou rota de fuga pra mensagens e histórias que batem de frente com muros e militares sionistas.
Na Palestina havia um porquê em cada manhã. Lá as pessoas viam, nas câmeras e cadernos estrangeiros um caminho por onde contrabandear sua voz e sua história. Aqui sou só um estudante gringo com alguns dólares no bolso pra perder em papiros e miniaturas de esfinges.
Não há, na Palestina, monumentos e museus que lutem contra o tempo e a invisibilidade de um sistema colonial. As pedras que aqui se empilham em pirâmides lá são escombros cobrindo o chão sob buldozzers e botas que marcham, matam e negam. Por mais que Holliwod tente embranquecer e europeizar os Reis e deuses africanos do Nilo, ninguém tentará negar os milênios que se acumulam nas paisagens e historiografia egípcia. Enquanto isso, o passado palestino sobrevive nas vozes do presente. As histórias, poemas e canções constróem e reconstróem uma memória roubada e escondida. Palestinos precisam reconstruir dia após dia seus ancestrais da mesma maneira que fazem com as casas destruidas pelo exército israelense. Talvez por isso o tempo corra diferente aqui. Lá, o tempo é feito de urgências, e cada novo assentamento, cada novo pronunciamento racista de um governo colonial, cada novo metro de muro sufoca a ideia de futuro, e cada dia é uma urgência real. No Egito o tempo é vasto, e existe muito passado pra que se tema pelo fim do futuro.
No Cairo é fácil sentar e assistir o jogo de futebol de hoje esperando o jogo de amanhã. A certeza do amanhã não se oblitera pelos tanques de guerra cercando a Praça Libertação.
As pedras palestinas voam, enquanto que as egípcias permanecem. Lá, as pedras servem ao povo anônimo,rostos escondidos sob lenços. Aqui, as pedras servem à turistas, se amontoam em túmulos de reis de rostos estampados em camisetas e cartazes de agências de viagem.
Talvez seja a clareza do inimigo que torna a luta da Palestina tão evidente. Aqui, o opressor não vêm de fora, não fala outra língua, não declara seu ódio e racismo em tribunas da ONU com anuência da CNN e dos donos do mundo. Aqui, revolucionário e repressor se confundem na rua, no rosto, no nome, na família e no discurso de um mesmo amor pela mesma terra com pontos de vista diferentes.
O tempo é preguiçoso, grande e lento no Egito, majestoso e vasto demais pra caber nos anseios de uma juventude perdida entre revolução e tradição. Na Palestina o tempo emagrece nas greves de fome, nas prisões, bombardeios e esmolas de ONG’s ineficientes e ativistas ineficientes que escrevem em suas pranchetas, teses acadêmicas e blogs inúteis.
No Egito, a paciência é uma virtude. Na Palestina, é uma fraqueza.

Ou talvez seja só eu que não saiba lidar com o deserto de tantos ontens e amanhãs.    

Uma visita desagradavel

Não eram ainda onze horas de uma manhã de sol no Vale do Jordão. Estava trabalhando com amigos brasileiros e palestinos, consertando o telhado de uma casa no vilarejo de Al-Fasayal, quando o jipe chegou. Eram quatro soldados, todos muito jovens, com exceção de um oficial arrogante de olhos azuis, aparentando estar na casa dos trinta. A postura agressiva e desrespeitosa denotava já alguns anos no cumprimento patriótico da ocupação militar ilegal.

Entraram na casa sem perguntar. A primeira frase que ouvi foi “hey, you, no pictures!” quando viram que eu tinha uma câmera. Olharam a casa, fizeram algumas perguntas’ tiraram fotos e foram embora depois de quinze minutos.

Quando saíram, guardei minha câmera no quarto e escondi o cartão de memoria embaixo de uma ripa de madeira, desconfiando de que a visita tinha sido muito curta.

Palpite confirmado, retornaram após quinze minutos, agora com nove soldados. Mandaram o trabalho parar e ordenaram que nos reunissemos Um dos soldados quis ver minha câmera e me acompanhou ate o quarto, junto com dois outros militares. Mostrei o equipamento e disse que, na pressa, havia deixado o cartão de memoria no meu hostel, em Bethlehem. Disse que era apenas um turista cristão que havia chegado na noite anterior, na esperança de fazer hiking nas montanhas de Jericho.

Os soldados falavam um inglês péssimo (o sistema de ensino israelense se preocupa menos em formar leitores do que lutadores), mas entre os novos cinco militares havia um interprete de português. Era um rapaz argentino, muito jovem e magro, filho de uma judia brasileira, que havia morado algum tempo no Rio de Janeiro antes vir pra Israel se voluntariar para invadir casas de gente inocente no meio do deserto.

Eles revistaram mochilas, armários e gavetas, olharam embaixo das camas e dos colchões. Juntaram todas as bandeiras palestinas que encontraram e amontoaram num canto, junto com cartazes e banners, como se fossem bombas e fuzis. Apontaram com nojo pra os adesivos colados nas paredes e praguejaram em hebraico.

O argentino franzino tentou desesperadamente me alertar para o perigo que eu corria estando lá. Ele me disse “você é maluco de ficar com palestinos, esses caras são muçulmanos radicais, todos fanáticos”, e ficou inconformado quando eu lhe contei que ja tinha tomado cerveja com um deles, e que minha amiga estava lá em cima, trabalhando junto com os homens, vestindo camiseta de manga curta e usando os cabelos soltos.

    – Olha ao seu redor, isso aqui é tudo miséria! Ali, olha ali, tem um burrinho solto, e tem um monte de galinhas andando por ai! Você veio do Brasil, sabe o que é miséria, sabe o que é favela, por que você vem aqui pra essa miséria? Olha pra as casas dessa gente, sente o cheiro, tudo miserável, sujo!

 Ao que eu respondi:

   – Amigo, olha ao seu redor, olha pra essas montanhas, ouve esses pássaros, sente esse vento, olha essa simplicidade. Onde você vê miséria, eu só consigo ver beleza.

Eles juntaram nossos passaportes, fotografaram os documentos e nossos rostos. Disseram que poderíamos ser presos se trabalhassemos com palestinos, “atacando judeus e queimando bandeiras”.

Havia um grande banner na parede, mostrando a foto de um soldado em cima de um tanque de água, apontando o fuzil para mulheres e crianças. O soldado me perguntou por que eu tinha aquela foto se eu não estava contra israel. Eu disse que o banner não era meu. Ele perguntou por que estava na parede se não era meu, ao que eu respondi que a parede também não era minha. Então ele me perguntou por que eu não arrancava a foto da parede se ela não era minha. Eu disse, um tanto contrariado, que no meu pais nós não temos o habito de arancar os fotos que não nos pertencem de paredes que não nos pertencem em casas de gente que nos hospeda de graça.

Os soldados encontraram a câmera de um dos palestinos, mas ela estava sem cartão de memoria.Eles disseram que, se não era nossa, então eles estavam confiscando o equipamento para verificar na base. Perguntamos educadamente se eles poderiam deixar um recibo dizendo que levaram a câmera, para que pudéssemos apresentar para o dono quando ele retornasse e depois recuperar o bem que lhe foi tomado. Eles discutiram um pouco em hebraico e decidiram generosamente não roubar a câmera aquele dia.

Tudo durou pouco menos de uma hora, ao fim da qual eles entraram nos seus jipes blindados, ligaram os motores e esperaram por mais dez minutos. Rondaram a casa e foram embora, levando embora a democracia israelense e nos permitindo curtir a nossa miséria em paz.

                                         *foto do companheiro Nicolas Neves dos Santos

O escorpião das horas

Em arabe, os ponteiros do relógio chamam-se “aqrab al-saat”, o escorpião das horas. A contagem do tempo como a ferroada que se aproxima, veneno que arde e mata por dentro, correndo corrente sanguínea escorrendo sub-repticianamente na areia do deserto de uma ampulheta.

Talvez essa seja a razão de a relação com o tempo ser tao diferente aqui. Os minutos não estão à venda, não tem post-its amarelos pendendo pelas bordas.

Os escritórios fecham às quatro horas da tarde, como que sabendo não valerem a pena os papéis carimbados diante do pivilegio de chegar em casa a tempo de dar um beijo nas crianças, ou de fumar narguile, jogar baralho e assistir um jogo do Barcelona com os amigos em um café qualquer.

Se tomo um taxi, o motorista toma o caminho mais longo, para pra cumprimentar um amigo, volta com café e biscoitos pra me oferecer. De graça, sempre.

Se dou bom dia para o vizinho de baixo, ele me puxa pelo braço pra tomar chá, mostrar as fotos de familia, falar de literatura, do tempo frio, do jornal de ontem, dos tempos que se foram e já não voltam mais. Quando o vicio da pressa me toca cedo de casa, preciso me esgueirar pra nao ser sequestrado pela gentileza alheia.

A urgência do capitalismo predatório não colonizou as mentes que germinam em terras colonizadas. Comprar souvenirs na cidade velha implica sentar, barganhar, contar piadas. Historias valem mais do que dinheiro, e quanto melhor a sua historia, menor o preço da bugiganga. Pechincha-se prosa.

Cinco vezes por dia, o canto que ecoa os templos canta o tempo de esquecer caixas registradoras, carteiras de identidade, muros e mortes. Mãos largam pedras e teclados e arados. Homens ajoelhados sobre tapetes, casacos, concreto, curvam cabeças na mesma direção e, em silêncio, são um.

Sempre ha tempo pra mais um café, olá como vai, e o brasil, e aquela gripe, leve uns limões, colhi ontem, são deliciosos, ahlam wa sahlam, leve um casaco que vai esfriar, ahlam wa sahlam pra você também.

De paciência se destila o soro que atrasa o relógio.

Conversando com um taxista, contei os locais por onde viajei. Haifa, Nazareth, Jerusalém, Hebron, vale do Jordão, Nablus, Jenin e diversas vilas por toda a Palestina. “Você conhece esta terra muito bem”, ele me disse. Comecei a falar sobre como eu achava que a única maneira de realmente entender a palestina, pra um estrangeiro, é conversar com o seu povo e ver de perto o que os documentarios e filmes não mostram. percebi que ele ficou incomodado e parei. Seguiu-se um minuto de silênco, ao fim do qual ele me disse, emocionado “Você conhece a minha terra melhor do que eu”.

Não posso imaginar o que seja viver em claustro por toda uma vida. Um palestino pode comprar um carro, encher o tanque de combustivel, mas não pode seguir por duas horas em uma estrada sem bater em um muro de oito metros de altura. e precisar voltar. Rodar em circulos por toda uma vida, como ratos num labirinto. Andar por uma estrada e se deparar um com checkpoint flutuante, uma barreira surpresa que o fará parar, ter seu carro revistado, seus documentos checados, sua identidade questionada.
Por três vezes nas ultimas três semanas estive em um ônibus de turismo cheio de brasileiros que foi parado em checkpoints. Descemos, tivemos nossas bagagens revistadas, nossos passaportes olhados com desconfiança. Precisei camuflar cartões de visita palestinos para evitar interrogatórios mais demorados. pessoas do meu grupo foram chamadas aleatoriamente para uma sala privada.
Toda vez que estou em um ônibus em direção á Jerusalém temos que parar em um checkpoint. Todos os palestinos são obrigados a descer para serem checados. Estrangeiros (se forem brancos) não precisam descer, mas desço assim mesmo. Soldados entram no onibus, checam seu passaporte, perguntam de onde você veio. 
Todas as manhãs centenas de palestinos que possuem vistos de trabalho cruzam checkpoints para limpar banheiros de israelenses, coletar lixo, servir como garçons. São enfileirados em um corredor claustrofóbico, passam por uma grade, atravessam um grande pátio vazio cercados por torres de vigilância com atiradores nas cabines, passam por outra grade de acesso, tem suas bagagens checadas, passam por detetores de metal, apresentam seus documentos, passam por um terceiro portão e chegam do outro lado, onde são recebidos por cartazes de famílias européias felizes brincando na praia com dizeres de “bem vindos à Israel”.
O motorista do taxi que eu tomei não tem a sorte de poder atravessar postos de controle e ser humilhado diariamente. Ele precisa se contentar com as áreas cercadas por soldados e muros. nasceu confinado, e provavelmente morrerá confinado.

Feliz ano velho

Primeiro dia do ano novo. Voltando pra casa no ultimo ônibus, desci no checkpoint entre Jerusalem e Bethlehem. Uma familia palestina desceu e atravessou a barreira logo à minha frente. Pai, mãe e dois filhos, que não teriam mais do que cinco e sete anos. O mais velho corria, espivetado, e o mais novo não acompanhava o ritmo. Atravessaram a primeira barreira, entraram no patio intermediário e se viram no enorme espaço aberto normalmente abarrotado. O filho mais velho, que se chamava Nicolas, de acordo com os gritos da mãe, não sossegava. Então o pai correu, colocou o mais novo nos ombros e disparou à galope, brincando com os dois pequenos naquela imensidão murada, sob a vigília das torres e dos soldados entediados com seus rifles e jogos de celular.

Por um instante me esqueci das grades e fardas ao nosso redor. Ali, ao meu lado, eu via uma familia comum, um parque, um fim de tarde num começo de ano simples e tranquilo. 

Talvez o pai esteja calejado o suficiente pra esquecer e se permitir ser alegre ali, ou talvez seja um ato benevolente de quem quer prolongar a inocência de duas crianças que nasceram sem o direito de ser inocentes. 

Sorri, mas depois não sabia se havia espaço pra sorrir. Talvez aquele pai tenha a mesma duvida que eu.

Último dia

02 de março

Ontem me despedi de Jerusalém. No dia anterios, me despedi de Beith Sahur.
Acordei essa manhã em Tel Aviv, e dentro de alguns minutos estarei passando pelos detectores de humanidade do aeroporto. Esperar agora que um sorriso hipócrita e um background inventado, cheio de jesus e shalom, faça com que me considerem inofensivo.
Enviei meus livros pelo correio, apaguei minhas fotos e meus textos. Quanto menos você sabe, mais eles gostam de você. Nenhum soldado realmente busca bombas.
Ontem uma amiga ficou nua em uma sala de interrogatório só por ter um nome árabe. Outra foi interrogada por carregar o cartão de uma livraria que vende material político. Alguns dos colegas tomaram taxis, mas o chofer tinha a cor da pele errada, o sotaque errado, então os soldados mandaram o carro encostar antes de chegar ao aeroporto, e o interrogatório e a vistoria de bagagem aconteceram ali mesmo, no acostamento.
Em algumas horas um agente de segurança me perguntará quem eu conheci, aonde fui, o que vi. Preciso bloquerar meu facebook, apagar meus e-mails, limpar meu computador. Se eu interpretar meu papel corretamente o soldado vai me deixar voltar. Ele vai carimbar meu passaporte com uma nota de acordo com meu grau de periculosidade. Se eu parecer suficientemente alienado, Israel será gentil comigo.
Dentro de pouco tempo estarei no Brasil. Vou matar a saudade do meu amor, dos meus amigos, da minha casa e de feijão. Vou sentar no meu quarto confortável, organizar a pilha de textos que não publiquei nesse blog nas ultimas semanas, relaxar em segurança com a certeza de que nenhum soldado arrombará minha porta de madrugada. Ninguém vai demolir a minha casa. Ninguém vai apagar minha história. Ninguém vai espancar minha família ou me prender por me recusar a ser tratado como lixo. Vou escrever sobre o que vi no conforto da minha casa, enquanto cultivo a saudade dos amigos que ficam aqui, presos em uma jaula com estes animais de farda e rifle.
Acho que meu feijão será um pouco mais amargo daqui pra frente.

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05 de março

No aeroporto um agente de segurança pegou meu passaporte ainda na fila do check-in e me pediu para esperar ao lado. saiu, voltou e perguntou o propósito da minha visita. Eu disse que estava ali por uma questão religiosa, que era cristão e tinha ido fortalecer meus laços com nosso senhor jesus cristo. Me perguntou se eu estava lá com israelenses. Eu disse que havia acabado de chegar da casa de uma família de Tel-Aviv, tios de uma amiga brasileira. Me peruntou os nomes deles e onde moravam, e eu respondi. Dez minutos depois, outro agente de segurança voltou, fez mais perguntas sobre o propósito da minha viagem e pediu que eu repetisse os nomes dos israelenses que eu conhecia. Dez minuotos depois, a mesma coisa com outro agente.

Minhas malas passaram primeiro pelo raio-x, depois foram minuciosamente revistadas. Ligaram minha câmera e viram as fotos que eu havia deixado nelas. Passam um tecido em todas as minhas coisas e colocam amostras em uma máquina, à procura de vestígios de explosivo. pergunto do que se trata  aquilo. “SÉ sigiloso, questão de segurança”. Em seguida abrem meu computador, passam o pano á la C.S.I., chamam o supervisor.”Senhor, vamos levar seu computador para verificação”. Claro, pode levar, que escolha eu tenho?

Fui para uma sala separada, parecida com um provador de roupas apertado. Fiquei de cueca, fui revistado e passei pelo detector de metais. Queriam saber onde eu fui, o que fiz, o que achei do país. Alguns agentes eram simpáticos, sorriam e me perguntavam sobre o carnaval carioca enquanto caçavam indícios de que eu fosse um terrorista perigoso. Outros eram mais agressivos. “Senhor, sua câmera, seu celular, seu computador e todos os dispositivos eletrônicos que estiverem em sua posse terão que ser despachados”. Ok, posso perguntar o motivo? “Sigiloso, não posso te dizer”. 

No fim de tudo, uma agente me acompanha até o terminal de despacho de bagagem. Coloco a primeira mala na esteira, onde só existem roupas e presentes. Coloco a segunda mala, onde estão minha cãmera, celular e computador, ela me interrompe. “Senhor, essa mala nós vamos levar até outra sala, e ela será embarcada junto com suas coisas em seguida”. Não me dou ao trabalho de perguntar a lógica, já sei a resposta israelense pra todas as perguntas: “é sigiloso, questão de segurança”.

A agente me acompanha até o ultimo guichê antes do embarque. Cheguei no aeroporto por volta de 13:30h, agora são 16:40h. Tenho tempo de ir ao banheiro, jogar um café no ânimo e correr para meu vôo. 

Antes de embarcar, um segurança simpático verifica minha passagem, sorri e solta um sincero “O senhor aproveitou sua estada em Israel”. Claro, lugar adorável, gente adorável, metralhadoras adoráveis… “Volte sempre”!

Agradeço e sorrio o sorriso mais sincero. Ah sim, eu voltarei.

O Guia

“Me perguntaram: Ali, você colocaria outra bomba em Jafa, como antigamente¿ Não, eu não colocaria. Não porque tenha medo de ir pra a cadeia de novo, não senhor. Eu estive preso por dezessete anos, a prisão pra mim é como um hotel cinco estrelas. Não, eu não faria novamente porque eu criei cinco belos filhos, e não é isso que eu quero para eles. Eu faço meu ativismo, conto minha história para as pessoas, porque existem bons israelenses que querem viver em paz conosco, e a minha bomba pode fazer a diferença entre o vizinho judeu que desejará a paz comigo e o soldado que pegará um rifle contra meus filhos. Eu quero a paz. Mas não pensem que sou um homem gentil. Eu tenho meus alvos: o exército e os colonos. Nós, palestinos, cansamos de trilhar os passos de Jesus.  Contra meus inimigos, serei como Sansão”.
O guia entrelaçava elegantemente sua biografia com a história da cidade. Sentado em uma poltrona vermelha, fumando lentamente, amargurado e enérgico, refletia algo de familiar quando falava. A voz suave e firme do velho negro que narra a história de gerações de luta, dor e esperança, soa como o canto do Muezzin que ecoa pelos corredores da cidade branca convocando a reza. Ouvir o ancião era ouvir a voz de Jerusalém.
Pouco mais de uma hora antes, Ali nos conduzia pelas ruas da cidade velha. “Turismo  bonito é para americanos estúpidos”, dizia ele. Ali não estava interessado em contar a idade das pedras. Nosso guia estava mais preocupado com as pedras que voam das mãos de crianças contra tanques de guerra.
Nosso tour começou nas portas do centro de estudos de árabe da universidade de Al-Quds. A cada passo, Ali apontava com sua bengala as flâmulas judaicas tremulando sobre as casas palestinas. Estandartes de colonização, debochando dos palestinos do alto das torres. Antes as estrelas de Davi pareciam combinar com a cidade, estrelas do meio-dia, mas agora haviam se tornado apenas zombaria.
Poucos metros a frente, placas de obras em hebraico. Ali nos conta que são as escavações por baixo da mesquita de Al-Aqsa. Segundo ele, os arqueólogos Israelenses estão procurando indícios que atestem a ancestralidade judaica do local, mas até agora não foram capazes de encontrar nada. Continuarão escavando até que a mesquita caia sobre o peso da obstinação colonial. Para os israelenses, a vitória de reduzir um símbolo supremo de fé islâmica em ruínas. Para Ali, as ruínas serão pólvora para a ira palestina.
Mais a frente Ali nos mostra a esplanada das mesquitas e o muro das lamentações. Não podemos nos aproximar, porque a entrada de palestinos é proibida. Subimos varias escadas e vemos o lugar de cima. Ao lado do local santo, uma grande alameda em obras. Israel está construindo um parque exclusivo para judeus. Antes, o lugar era um quarteirão de marroquinos, mas as famílias foram desalojadas em nome do entretenimento dos colonizadores.
Enquanto conversamos, dois soldados encaram Ali. Os meninos de farda tem idade para serem netos do Guia. Ali devolve o olhar sorrindo, desafiador. Atravessa os coletes de kevlar com a audácia que os anos de militância lhe conferem. “Viram como eu sou popular¿ Eles me conhecem. Eu sou o prefeito de Jerusalém”.
Ruas estreitas, flores nas varandas, pedras brancas, crianças brincando pelas ruas. Andar por Jerusalém com olhos desavisados é reconfortante. Uma placa indica o nome da rua em Hebraico e em inglês. Deveríamos poder ler também em árabe, mas as palavras estão cobertas com adesivos políticos judaicos. A simples existência da língua dos palestinos nas ruas parece ofender a sensibilidade israelense.
Duas meninas correm na nossa direção, e Ali as cumprimenta em hebraico. Elas parecem fascinadas com a figura simpática. À nossa frente há um playground, pra onde as meninas correm. Perguntamos ao nosso guia o que aconteceria se crianças palestinas se atrevessem à sentar em um dos balanços. Ele nos aponta os seguranças armados, garantindo que árabes não correm o risco de cometer tal afronta.

Em uma praça, Ali nos mostra dois prédios vizinhos: uma sinagoga e uma mesquita. À primeira vista, um símbolo da possível coexistência. A mesquita, entretanto, está desativada. Um senhor de barba grisalha e quipá bordado se aproxima e pergunta algo em hebraico. Ali responde tranquilamente. O homem pergunta quantos idiomas nosso guia fala. Seis idiomas. A erudição, mais do que um louvor, é uma condição de sobrevivência do oprimido. É preciso eloquência pra falar mais alto do que canhões.
Ali nos conduz até o ponto final de nossa jornada: o quarteirão africano, onde vive nosso guia. Este não é um tour comum, e não estamos atrás da história dos prédios. As histórias que importam aqui estão esculpidas nas pessoas. A poltrona vermelha de Ali, ao redor da qual nos recostamos para ouvir sua história, é o ponto chave do dia.
Quando pendura seu casaco, atira sua boina sobre a mesa de centro, se senta em sua poltrona e acende um cigarro, um monumento desaba sobre suas fundações. Assisto o homem perder dez centímetros de altura, músculos afrouxarem e os anos brotarem subitamente. Nosso guia é um senhor cansado. Pela primeira vez tenho um vislumbre sobre quanto esforço é necessário para caminhar com a bengala pelos incontáveis degraus de Jerusalém. Quanta coragem é necessária para atravessar de cabeça erguida a cidade velha, com suas bandeiras debochadas, seus soldados imberbes, seus colonos arrogantes e seus gatos vigilantes. Quanta força é necessária para contar e recontar piadas para estrangeiros inocentes como nós, bem intencionados, que se emocionam neste par de horas, mas que voltarão amanhã com as malas recheadas de kufiyas para um país que podem chamar de seu. Quanta fé é necessária para arrastar suas pedras por essas paredes de pedra e não se tornar pedra também.
Nosso guia é um Guia por excelência, porque as marcas do seu rosto desenham um mapa de Jerusalém, com suas rugas, ruas e contradições, sua dor e violência, fé e força.
Nosso guia nos conduz pelo significado de ser Palestino.