“Não sou racista, é uma questão de higiene”

racismo israelense

“Não sou racista, mas não quero árabes nas nossas piscinas porque os padrões de higiene são diferentes dos nossos”

 
No dia 28 de julho, Moti Dotan, chefe do conselho regional da Galiléa – parte do atual território israelense que compreende a maior diversidade étnica da região – disse, em entrevista à radio Koi Chai, que árabes não deveriam frequentar as piscinas mantidas pelo conselho, pois a sua cultura e hábitos de higiene podem ofender os padrões judaico-israelenses. Ao longo da entrevista, Dotan reforçou diversas vezes que sua opinião não era racista.
 

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Empresa israelense oferece empregadas com valor tabelado por etnia

Racismo sionsita - empregadas por etnia

foto do panfleto denunciado pela blogueira Tal Schneider

O trabalho doméstico é, por si, um absurdo. Em Israel, porém, o absurdo ganha sempre novos limites, principalmente quando envolve a exploração de minorias étnicas, e com o trabalho doméstico não poderia ser diferente. Agora, na “única democracia do oriente médio” o valor da exploração do trabalho doméstico de uma mulher é tabelado por origem étnica.

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Sobre amor e Apartheid

Hoje, 14 de fevereiro, é comemorado mundialmente o Dia de São Valentim, uma data de celebração do amor, cheio de balões bregas, ursinhos, chocolates e propagandas machistas. Em Israel celebra-se o amor e a união tanto pela data comercial do dia 14 quanto pelo dia 15, a festa de Tu B’Av. Muitos cartazes cor-de-rosa, flores, jóias e amor – se você for judeu, é claro.

O amor para os palestinos com cidadania israelense não tem grande razão de celebração, por causa de uma das tantas leis racistas que fazem que deste pedaço de terra sagrada a antítese absoluta da democracia.

Clamam os sionistas ao redor do mundo que a Democracia Israelense garante igualdade aos árabes abraçados pela nação judaica. Um dos direitos fundamentais que a cidadania garante à todos os indivíduos ao redor do mundo é o de se casar e criar sua família no seu país. Pois bem, palestinos nascidos dentro de Israel são cidadãos (à despeito de não terem nacionalidade, que em Israel é Judaica, e não Israelense, mas isso é assunto pra outra postagem), mas o direito de amar e criar uma família não lhes é garantido.

Em 2003, durante a Segunda Intifada, o Knesset aprovou uma lei que proibia a união de palestinos-israelenses com palestinos dos territórios ocupados. Isso significou a separação de milhares de famílias, com a expulsão de palestinos nascidos do outro lado do muro. Em 2005, após criticas severas, a lei foi amenizada, com o direito de que homens acima de 35 anos e mulheres acima dos 25 pudessem fazer uma petição para a Unificação Familiar. Entre 2001 e 2010, apenas 54 das mais de 130.000 petições foram aprovadas. Atenção para a democracia garantida pela Suprema Corte para os palestinos com “cidadania” israelense: cinquenta e quatro de mais de cento e trinta mil. O quadro melhorou consideravelmente, quando, em 2012, foram aceitas 33 das mais de 30.000 petições renovadas durante o ano. Bacana, não?

Palestinos nascidos em Israel são, teoricamente, israelenses, portanto é ilegal que morem nos territórios ocupados. Se mudar para o outro lado do muro não é uma opção. Isso significa que palestinos não tem, também, permissão para criar seus filhos, pois a estes também não é concedida a cidadania israelense. Se uma petição para a cidadania de uma criança for aceita, então ela terá que viver longe de um dos pais de qualquer modo.

Em 2007, ao invés de retroceder, a lei foi ampliada. Dali em diante, também tornou-se crime o amor entre israelenses e libaneses, sírios, iranianos e iraquianos.

Consideremos, agora, o caso de uma mulher nascida em Bethlehem que consiga atravessar os anos e altos custos de burocracia israelense e obtenha o direito de viver com seu marido nascido em Jerusalém, à menos de dez quilômetros de distância. Neste caso, ela ainda não terá direito à serviços garantidos pelo Estado (e pelos quais ela paga altíssimos impostos), como seguro-saúde ou ter carta de motorista, e terá que renovar a permissão anualmente, que pode ser revogada pelo governo a qualquer momento e por qualquer razão.

A lei foi considerada racista pela ONU, mas Israel não se abalou.

Agora, consideremos, porventura, que um palestino-israelense e uma israelense judia queiram se casar. Nesse caso, aí sim, é também… inviável.

Em Israel não existe casamento civil. Para formalizar uma união, é necessária a benção de uma autoridade religiosa reconhecida pelo Estado. No caso, judeus precisam do aval do rabinato ortodoxo. Portanto, o nosso palestino apaixonado precisaria se converter ao judaísmo (e não é necessária muita imaginação para visualizar o que isso significa quando tratamos de um povo que luta diariamente pela manutenção de sua herança cultural e afirmação de identidade), estando submetido à mercê da boa vontade de sinagogas sionistas abraçarem seus irmãos árabes.

A lei foi estabelecida sob o pretexto de garantir a segurança do estado durante os ataques suicidas da segunda Intifada, que apavoraram (com razão) a sociedade israelense. Entretanto, a manutenção de tal segregacionismo mais de uma década após o levante mostra a real natureza do sistema: a manutenção da maioria demográfica judaica.

O amor não tem valor em tempos de Apartheid.

Feliz dia dos namorados!

Para mais informações sobre como o sionismo criminaliza o amor, visite http://www.loveunderapartheid.com/

Conversando com um taxista, contei os locais por onde viajei. Haifa, Nazareth, Jerusalém, Hebron, vale do Jordão, Nablus, Jenin e diversas vilas por toda a Palestina. “Você conhece esta terra muito bem”, ele me disse. Comecei a falar sobre como eu achava que a única maneira de realmente entender a palestina, pra um estrangeiro, é conversar com o seu povo e ver de perto o que os documentarios e filmes não mostram. percebi que ele ficou incomodado e parei. Seguiu-se um minuto de silênco, ao fim do qual ele me disse, emocionado “Você conhece a minha terra melhor do que eu”.

Não posso imaginar o que seja viver em claustro por toda uma vida. Um palestino pode comprar um carro, encher o tanque de combustivel, mas não pode seguir por duas horas em uma estrada sem bater em um muro de oito metros de altura. e precisar voltar. Rodar em circulos por toda uma vida, como ratos num labirinto. Andar por uma estrada e se deparar um com checkpoint flutuante, uma barreira surpresa que o fará parar, ter seu carro revistado, seus documentos checados, sua identidade questionada.
Por três vezes nas ultimas três semanas estive em um ônibus de turismo cheio de brasileiros que foi parado em checkpoints. Descemos, tivemos nossas bagagens revistadas, nossos passaportes olhados com desconfiança. Precisei camuflar cartões de visita palestinos para evitar interrogatórios mais demorados. pessoas do meu grupo foram chamadas aleatoriamente para uma sala privada.
Toda vez que estou em um ônibus em direção á Jerusalém temos que parar em um checkpoint. Todos os palestinos são obrigados a descer para serem checados. Estrangeiros (se forem brancos) não precisam descer, mas desço assim mesmo. Soldados entram no onibus, checam seu passaporte, perguntam de onde você veio. 
Todas as manhãs centenas de palestinos que possuem vistos de trabalho cruzam checkpoints para limpar banheiros de israelenses, coletar lixo, servir como garçons. São enfileirados em um corredor claustrofóbico, passam por uma grade, atravessam um grande pátio vazio cercados por torres de vigilância com atiradores nas cabines, passam por outra grade de acesso, tem suas bagagens checadas, passam por detetores de metal, apresentam seus documentos, passam por um terceiro portão e chegam do outro lado, onde são recebidos por cartazes de famílias européias felizes brincando na praia com dizeres de “bem vindos à Israel”.
O motorista do taxi que eu tomei não tem a sorte de poder atravessar postos de controle e ser humilhado diariamente. Ele precisa se contentar com as áreas cercadas por soldados e muros. nasceu confinado, e provavelmente morrerá confinado.

O Guia

“Me perguntaram: Ali, você colocaria outra bomba em Jafa, como antigamente¿ Não, eu não colocaria. Não porque tenha medo de ir pra a cadeia de novo, não senhor. Eu estive preso por dezessete anos, a prisão pra mim é como um hotel cinco estrelas. Não, eu não faria novamente porque eu criei cinco belos filhos, e não é isso que eu quero para eles. Eu faço meu ativismo, conto minha história para as pessoas, porque existem bons israelenses que querem viver em paz conosco, e a minha bomba pode fazer a diferença entre o vizinho judeu que desejará a paz comigo e o soldado que pegará um rifle contra meus filhos. Eu quero a paz. Mas não pensem que sou um homem gentil. Eu tenho meus alvos: o exército e os colonos. Nós, palestinos, cansamos de trilhar os passos de Jesus.  Contra meus inimigos, serei como Sansão”.
O guia entrelaçava elegantemente sua biografia com a história da cidade. Sentado em uma poltrona vermelha, fumando lentamente, amargurado e enérgico, refletia algo de familiar quando falava. A voz suave e firme do velho negro que narra a história de gerações de luta, dor e esperança, soa como o canto do Muezzin que ecoa pelos corredores da cidade branca convocando a reza. Ouvir o ancião era ouvir a voz de Jerusalém.
Pouco mais de uma hora antes, Ali nos conduzia pelas ruas da cidade velha. “Turismo  bonito é para americanos estúpidos”, dizia ele. Ali não estava interessado em contar a idade das pedras. Nosso guia estava mais preocupado com as pedras que voam das mãos de crianças contra tanques de guerra.
Nosso tour começou nas portas do centro de estudos de árabe da universidade de Al-Quds. A cada passo, Ali apontava com sua bengala as flâmulas judaicas tremulando sobre as casas palestinas. Estandartes de colonização, debochando dos palestinos do alto das torres. Antes as estrelas de Davi pareciam combinar com a cidade, estrelas do meio-dia, mas agora haviam se tornado apenas zombaria.
Poucos metros a frente, placas de obras em hebraico. Ali nos conta que são as escavações por baixo da mesquita de Al-Aqsa. Segundo ele, os arqueólogos Israelenses estão procurando indícios que atestem a ancestralidade judaica do local, mas até agora não foram capazes de encontrar nada. Continuarão escavando até que a mesquita caia sobre o peso da obstinação colonial. Para os israelenses, a vitória de reduzir um símbolo supremo de fé islâmica em ruínas. Para Ali, as ruínas serão pólvora para a ira palestina.
Mais a frente Ali nos mostra a esplanada das mesquitas e o muro das lamentações. Não podemos nos aproximar, porque a entrada de palestinos é proibida. Subimos varias escadas e vemos o lugar de cima. Ao lado do local santo, uma grande alameda em obras. Israel está construindo um parque exclusivo para judeus. Antes, o lugar era um quarteirão de marroquinos, mas as famílias foram desalojadas em nome do entretenimento dos colonizadores.
Enquanto conversamos, dois soldados encaram Ali. Os meninos de farda tem idade para serem netos do Guia. Ali devolve o olhar sorrindo, desafiador. Atravessa os coletes de kevlar com a audácia que os anos de militância lhe conferem. “Viram como eu sou popular¿ Eles me conhecem. Eu sou o prefeito de Jerusalém”.
Ruas estreitas, flores nas varandas, pedras brancas, crianças brincando pelas ruas. Andar por Jerusalém com olhos desavisados é reconfortante. Uma placa indica o nome da rua em Hebraico e em inglês. Deveríamos poder ler também em árabe, mas as palavras estão cobertas com adesivos políticos judaicos. A simples existência da língua dos palestinos nas ruas parece ofender a sensibilidade israelense.
Duas meninas correm na nossa direção, e Ali as cumprimenta em hebraico. Elas parecem fascinadas com a figura simpática. À nossa frente há um playground, pra onde as meninas correm. Perguntamos ao nosso guia o que aconteceria se crianças palestinas se atrevessem à sentar em um dos balanços. Ele nos aponta os seguranças armados, garantindo que árabes não correm o risco de cometer tal afronta.

Em uma praça, Ali nos mostra dois prédios vizinhos: uma sinagoga e uma mesquita. À primeira vista, um símbolo da possível coexistência. A mesquita, entretanto, está desativada. Um senhor de barba grisalha e quipá bordado se aproxima e pergunta algo em hebraico. Ali responde tranquilamente. O homem pergunta quantos idiomas nosso guia fala. Seis idiomas. A erudição, mais do que um louvor, é uma condição de sobrevivência do oprimido. É preciso eloquência pra falar mais alto do que canhões.
Ali nos conduz até o ponto final de nossa jornada: o quarteirão africano, onde vive nosso guia. Este não é um tour comum, e não estamos atrás da história dos prédios. As histórias que importam aqui estão esculpidas nas pessoas. A poltrona vermelha de Ali, ao redor da qual nos recostamos para ouvir sua história, é o ponto chave do dia.
Quando pendura seu casaco, atira sua boina sobre a mesa de centro, se senta em sua poltrona e acende um cigarro, um monumento desaba sobre suas fundações. Assisto o homem perder dez centímetros de altura, músculos afrouxarem e os anos brotarem subitamente. Nosso guia é um senhor cansado. Pela primeira vez tenho um vislumbre sobre quanto esforço é necessário para caminhar com a bengala pelos incontáveis degraus de Jerusalém. Quanta coragem é necessária para atravessar de cabeça erguida a cidade velha, com suas bandeiras debochadas, seus soldados imberbes, seus colonos arrogantes e seus gatos vigilantes. Quanta força é necessária para contar e recontar piadas para estrangeiros inocentes como nós, bem intencionados, que se emocionam neste par de horas, mas que voltarão amanhã com as malas recheadas de kufiyas para um país que podem chamar de seu. Quanta fé é necessária para arrastar suas pedras por essas paredes de pedra e não se tornar pedra também.
Nosso guia é um Guia por excelência, porque as marcas do seu rosto desenham um mapa de Jerusalém, com suas rugas, ruas e contradições, sua dor e violência, fé e força.
Nosso guia nos conduz pelo significado de ser Palestino.