Sobre Empresariado, políticos e Síndrome de Estocolmo

 

Se há algo que ficou indiscutivelmente comprovado com os últimos capítulos da nossa crise nacional, é que praticamente todo o alto escalão da nossa classe política — e consequentemente todos os aparelhos do sistema democrático — é, direta ou indiretamente, subordinada aos alto empresariado. Isso é algo que grande parte da esquerda vem dizendo há anos, mas até agora ninguém podia ter dimensão real do quão profundo era o domínio do empresariado sobre a República. Assim, é perfeitamente compreensível que aumente a cada dia o descrédito sobre classe política. Agora, o que não faz nenhum sentido é que, exposto o parasitismo do alto empresariado em todos os esquemas de corrupção política, diante de tantos escândalos envolvendo empresas como a Odebrecht, revelado o potencial de destruição de que esse sistema de corrupção empresarial demonstrou ser capaz, as pessoas ainda sejam tão ingênuas a ponto de continuar tendo essa fé cega na figura d’O Empresário para gerir a máquina pública.

Dória sintetiza tudo o que há de mais nefasto nesse sistema. Ele é não apenas o Empresário por excelência, mas é também um dos mais bem sucedidos intermediadores de esquemas entre o alto empresariado e setores públicos que este país já viu. Pra quem não sabe, a fortuna de Dória vem, majoritariamente, do LIDE, um consórcio de empresários gerido pelo joão trabalhador, que apenas em mensalidades gera em torno de R$9 milhões mensais, fora as cotas de patrocínio e honorários por acordos intermediados. Basicamente, o trabalho de Dória é articular esquemas entre empresários e apresentá-los a políticos influentes, de onde saem contratos, licitações e projetos públicos. Enquanto empresário, o papel de Dória é ser articulador entre empresários e políticos. Enquanto político mais importante da maior cidade da america latina, Dória tem a faca e o queijo.

Como ficou demonstrado pelas delações da Odebrecht, um dos setores que mais detém poder político no país é o das empreiteiras. São Paulo é uma cidade refém do setor de especulação imobiliária, que gentrifica a cidade, expulsa os pobres para periferias cada vez mais distantes, regula políticas de transporte e habitação, pauta as prioridades das forças de segurança e repressão e, em última instância, define quem é que tem direito de viver nesta cidade. Assim, não é surpresa alguma que Dória tenha ordenado à toque de caixa, no fim de semana da Virada Cultural e dia do protesto pela renúncia de Temer, e justamente no pico da crise de sucessão da presidência, a invasão e desocupação violentamente cinematográfica da cracolândia, para dar início imediato à demolição dos prédios e construção de um novo empreendimento imobiliário. A ação irresponsável de Dória na cracolândia, como tudo o que ele tem feito desde que foi eleito, teve dois objetivos: atender aos interesses dos setores imobiliários e projetá-lo midiaticamente como um homem de ação. Mais uma vez, o prefeito busca demonstrar eficiência para seus clientes e se para se construir como o “diferencial” para um povo que não consegue mais suportar a figura do político tradicional.

É comum um jargão de auto-ajuda para empreendedores que diz que em chinês usa-se a mesma palavra para “crise” e “oportunidade”. Com a inevitável queda de Temer, o alto empresariado — que já sabemos que governa o nosso governo — vai precisar de um novo articulador de esquemas na cadeira da presidência.

Verdade seja dita, é bastante possível que eles não ficassem insatisfeitos com Lula, que, a despeito de tudo, é conhecido como um grande conciliador dos interesses desse mesmo alto empresariado, tendo impulsionado vertiginosamente o lucro e influência de empresas como a JBS, banqueiros e latifundiários. Porém, não podemos perder de vista que Lula também representa alguns interesses do povo que desagradam esse empresariado. Ainda que seja difícil imaginar Lula combatendo essa classe (como ficou claro quando ele declarou que não se pode punir as empresas pelos crimes de seus donos) ele representaria um retrocesso na pilhagem desbaratada que a gestão Temer levou à cabo, e por isso seja provavelmente a melhor carta de que a esquerda mais conservadora dispõe neste momento em um cenário de disputa eleitoral. Assim, com Lula disposto a ser mantenedor dos acordos que alimentaram o poder das megacorporações, os donos do poder sabem que precisam de alguém novo.

O que a classe empresarial que domina o sistema político deseja e precisa neste momento é de alguém como Dória, e ele está usando São Paulo para demostrar o que pode fazer se for contratado como “gestor” da nação. Toda a plataforma política de Dória na prefeitura se baseia na privatização de espaços e serviços públicos, cortes de assistências, repressão de direitos, criminalização de reivindicações sociais e glorificação do empresariado, sem qualquer preocupação com a população. A maior prova de que Dória ignora as consequências reais de sua política é o fato de o carro chefe de sua campanha ter sido o aumento da velocidade nas marginais, que provocou um crescimento de 60% nos acidentes, e que ele cinicamente considera um sucesso. E se ele não se preocupa nem com as mortes de motoristas de classe média, certamente não vai dar a mínima para as vidas da população em estado de fragilidade social que vive nas ruas da cracolândia, como também não perderia nenhuma das suas três horas de sono diárias se leiloasse as vidas de toda a população brasileira. O povo não interessa ao alto empresariado, porque corporações não tem povo, e sim clientes.

Se há algo que ficou indiscutivelmente comprovado com os últimos episódios de nossa crise política, com o desastre de Mariana, com o genocídio indígena em curso, com todo o rebosteio que tem desandado a tal sangria nos últimos quatro anos, é que o alto empresariado é um câncer parasitando todas as instâncias públicas da sociedade. Diante do atual cenário, chega a ser irônico falar em “setores públicos”, quando a maioria deles, do cadete de polícia ao presidente da república, se provam basicamente instrumentos do setor privado, focos de corrupção e incompetência absolutas.

Se há algo que jamais vou entender é essa Síndrome de Estocolmo que faz com que as pessoas continuem confiando em homens como João Dória e glorificando esse leviatã de gravata chamado O Empresário.

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