Patrões que acham que são importantes

Dória chegou mais cedo na prefeitura na sexta e tirou um sarro no twitter — vejam só a maturidade trumpiana do prefeito — dizendo que grevista é vagabundo e acorda tarde. Me lembrou uma história que ouvi recentemente.

Dia desses, uma amiga me contou sobre o dono de uma escola que, sabendo que os professores fariam greve, mandou que os alunos não fossem avisados. Ele pretendia ficar sozinho na escola vazia e receber os pais indignados. Não importava que ele não tivesse capacidade de dar as aulas, nem que os pais perdessem a viagem, nem que fosse absolutamente inútil manter aberta a escola só com o patrão. O importante é que os clientes veriam que ele — O Empresário — estava firme seu posto, trabalhando. Ele precisava manter a ilusão.

Dória, como todo rico, não é capaz de imaginar que algo neste universo não orbite em seu entorno. Para o prefeito, a ideia de que ele chegou ao trabalho no dia da greve é uma derrota para o movimento. Limitado pelo seu egocentrismo, dória, como todo patrão, não compreende que a sua presença no escritório não faz absolutamente nenhuma diferença se lá não estiverem as pessoas verdadeiramente responsáveis por fazer a máquina girar. Os donos do poder passaram a vida pensando que a sua presença inspira, que os seus gritos assustam, que fazem mágica quando assinam papéis, acreditando que ” o olho do patrão engorda o boi”, como se seus sorrisinhos entusiásticos e tapinhas nas costas nos servissem como combustível pra algo além de desprezo e rancor. Eles realmente acreditam que são a peça principal do tabuleiro. Risível, pra não dizer patético.

Um dos grandes méritos de uma greve é mostrar aos patrões o seu lugar de insignificância. Escancarar sua impotência. Quando, enlouquecidos, gritam que “meia dúzia de baderneiros não podem parar o país”, eles mostram que tem medo. Eles tem medo porque sabem quem é que tem o poder real. Sabem que todo poder emana do povo, e por isso se protegeram em um artigo fajuto da constituição que atesta que sim, o poder vem do povo, mas que ele “o exerce através de representantes eleitos”. Fodam-se os representantes eleitos! Todo poder emana do povo porque o povo é quem cria, produz, planta, cultiva, colhe, pensa, constrói, move a cidade, o campo, o país, a vida. Eles são parasitas protegidos por uma ilusão e tremem quando pensam que essa ilusão vai desmoronar.

Eles sabem que, sem o povo, sem as ilusões que disfarçam sua fraqueza, são só homens pequenos sozinhos em um escritório vazio. Eles sabem e perdem o sono a cada protesto, a cada bandeira erguida, cada vez que mais um cidadão desperta. Eles sabem e se agarram a qualquer mentira pra adiar o inevitável. Alegam que somos apenas meia dúzia de baderneiros, que recebemos dinheiro e sanduíches de mortadela para ir às ruas, que somos vândalos, arruaceiros, utópicos, massa de manobra, que fracassamos. Eles usam a mídia e a polícia pra enganar e reprimir, fazem ameaças de demissão, humilhação, perseguição, lançam mão de todos os recursos pra ludibriar o inevitável e, no fim, batem panelas como as crianças birrentas que são.

Não me surpreende que dória chegue cedo ao escritório. Nós sabemos o porquê de ele não conseguir dormir.

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