A carne é fraca

Texto originalmente publicado em 18 de Março, no Medium

Na moral, vocês já viram churrasco grego? Sabe, aquele colosso de carne besuntada de sebo que fica girando na beira da calçada das ruas e avenidas de São Paulo, sendo temperado com poluição atmosférica e fuligem de escapamento? É servido no pão de ontem, junto com um punhado de salada seca que fica guardada numa gavetinha de madeira em cima do motor do rolete. Sei lá, de repente você não curte, mas vou te falar que na hora do almoço a fila no Grego do Paissandú é maior que no starbucks, não só porque o lanche é uma delícia, mas também porque é a fila de quem não tem muito mais do que três reais no bolso. Agora, faz uma experiência: chega lá e conta pra galera sobre essa novidade aí que a carne que eles estão comendo é de procedência duvidosa. Depois me conta como foi.

“Ah, mas churrasco grego é apelação, extremismo, ui, nojo, credo, meu lanche de xópim é limpinho…”

Ok, vamos fazer uma brincadeira: abre aí uma aba no google e digita “higiene mcdonald’s”. Depois procura “higiene bob’s”, “higiene burguer king”, “higiene churrascaria bovinus”… Tenta “as coisas mais nojentas já encontradas na comida”, esse é ótimo.

“Ah, mas aí são casos isolados, acidente acontece, não pode generalizar…”

Beleza então. Se o que você quer é informação séria sobre como a comida que a gente compra no mercado é uma esponja de veneno (e nisso também se incluem vegetais), o que não falta é documentário, livro e entrevista com os mais diversos especialistas explicando isso. Se você pesquisar direitinho, provavelmente vai descobrir que metade da sua alimentação é composta por açúcar e derivados de petróleo, enquanto que outra metade também dá câncer.

“Ah, mas as pessoas não tem acesso a esse tipo de informação, elas não sabem que faz mal, só comem lixo porque são enganadas…”

Ci-gar-ro. Sabe, cigarro? Pois é. Na lateral do maço de cigarro tem uma tarjeta muito sincera dizendo que o produto contém mais de 4.700 substâncias tóxicas e que não existem níveis seguros pra o seu consumo. Atrás do maço tem ilustrações sobre sofrimento, morte e paumolecência mais didáticas que charge do lattuf. E nem precisa de aviso pra te dizer que cigarro faz mal, porque a verdade é que cigarro tem gosto de morte, tem cheiro de morte, tem cara de morte. Quem fuma, sabe o que tá fazendo. E, ainda assim, o tabagismo mata 6 milhões de pessoas por ano, e a OMS prevê que até 2030 esse número aumente pra 8 milhões. É claro que muita gente quer largar e não consegue. Tem quem fume por depressão, por raiva, por desgosto, por imposição social, mas acredite, há quem simplesmente se lambuze de prazer nesse gostinho de morte lenta e esteja plenamente consciente do que está fazendo.

Entenda, por favor, que eu não estou defendendo a indústria do tabaco, o agronegócio ou outros tipos de câncer.

O caso é que as pessoas consomem lixo. Qual a razão? Sei lá, várias. Certamente o maior culpado disso é o sistema capitalista, que sobrevive sugando a nossa vida e depois ainda cobra pra te deixar morrer, mas acho difícil que seja só isso. Pelas mais diversas razões, as pessoas consomem carne vermelha, açúcar, maconha, tabaco, álcool, pizza de nutella, lolapalooza, café e muitas outras drogas que, em maior ou menor grau, te deixam menos saudável. Parte disso é imposição capitalista e suas consequências devastadoras sobre o indivíduo, mas outra parte pode ser uma escolha por outras razões, que vão deste questões religiosas até o prazer puro e simples.

Então, ao invés de policiar o prato alheio, talvez devêssemos focar em combater a indústria da morte que envenena nossos prazeres. Lutemos por uma sociedade em que a produção de alimentos siga parâmetros éticos e conscientes, respeitando a sua imensa diversidade de culturas alimentares, na qual produtos de boa qualidade sejam acessíveis para todos, e não por uma sociedade cada vez mais proibicionista.

Existem pencas de bons motivos pra alguém optar pelo vegetarianismo, e o fato de salsicha ser feita de papelão (oh, quem diria, poxa vida, que grande surpresa hein….) não é uma das mais convincentes. Se você quer difundir sua ideologia alimentar, tem caminhos mais inteligentes do que reproduzir o comportamento babaca daquele cara que se sente um macho alpha caçador de mamute só porque comprou meio quilo de picanha no supermercado.

O inimigo é o agronegócio e o que o capitalismo faz com as culturas alimentares. Deixa quieto o churrasco grego do tiozinho. Deixa de ser o carnívoro babacão que mete o bedelho no vegetarianismo do colega. Me deixa fumar em paz, que também, sem a cachaça, ninguém segura esse rojão.

Qual a sua opinião?