Pérolas aos porcos

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Independente das muitas críticas ao governo PT, sou totalmente contra o Impeachment. Ainda assim, uma parte de mim não pode deixar de querer que Dilma saia. Não por não querer a continuidade do seu governo (e não que eu queira a continuidade DESSE governo), mas porque esses bárbaros não valem a pena o que essa mulher passa.

Dilma redefiniu as concepções brasileiras de linchamento moral. Não houve nenhum campo da vida política ou pessoal de Dilma que não tenha sido exposto, explorado e envenenado de um jeito tão imoral e covarde que só posso sentir certa admiração por ela ter tido autocontrole o suficiente pra não ter jogado tudo pro alto e mandado à merda todo esse circo muito antes dessa boiada aprender a escrever “impeachment”.

Quem acompanha minimamente o congresso ou coleciona um tanto de anedotas de história sabe bem que a política brasileira sempre foi uma fonte infinita de pronunciamentos grotescos, teatrais, malandros, poéticos e cômicos, mas foi só quando Dilma perdeu a linha do discurso que isso se tornou um atentado contra o orgulho pessoal de cada cidadão de bem. Os discursos da presidenta foram ridicularizados, viraram material pra piadas igualmente péssimas desde churrascos de família até palcos de stand-up e redações jornalísticas, e Dilma se tornou um símbolo nacional de incoerência. A título de pesquisa, vale a pena assistir os discursos, pronunciamentos e entrevistas de Dilma na época que era ministra-chefe da Casa Civil pra ter uma ideia do que aconteceu com ela. Assistam qualquer discurso anterior à 2008 e tentem negar a inteligência, eloquência e força dessa mulher, eu sinceramente os desafio. Assistam, comparem com os discursos pós-presidência e vocês vão ver que o que fugiu à Dilma foi o brilho no fundo dos olhos, a segurança, a vida.

Não me admira que Dilma tenha perdido o brilho. Ela não foi criticada apenas pelo seu altamente criticável programa político e econômico. Ela foi atacada por ser mulher, por ser solteira, por ser durona, pelo seu corpo, pelas roupas que vestia, pelo corte de cabelo, pelos discursos muito sérios, pelos discursos com piadas e metáforas ruins, por sorrir pouco, por gritar, por parecer um homem, por ter lutado contra a ditadura, por ter sido torturada, por ter resistido à tortura e mentido para os torturadores.

Hordas de selvagens gritaram em coro que Dilma era incompetente, terrorista, burra, feia, velha, vaca, vadia, puta. Fabricaram adesivos de carro sugerindo o estupro de Dilma. Em histeria coletiva, queimaram bonecos de Dilma como se fossem bruxas ardendo pra a glória da Inquisição. Adultos e crianças bradaram que a presidenta devia ser deposta, deportada, assassinada, torturada e estuprada. Um imbecil tatuou no braço uma imagem grotesca de Dilma fazendo um boquete.

A imprensa brasileira, que sempre foi Maccarthista e muito mais publicitária do que jornalística,  perdeu de vez qualquer pudor ou senso de ridículo e abriu uma cruzada de violência ideológica explícita contra a presidenta. Adulterou fotos, manipulou notícias, protegeu os bandidos, conduziu o judiciário, chamou de louca,  levantou boatos, induziu o ódio, a ignorância e a misoginia.

Eu não quero o impeachment por tantas razões que não vou perder meu tempo enumerando.

Eu sou opositor da gestão Dilma por tantas razões que me dá preguiça de recontar.

Como disse Eliane Brum, hoje há duas coisas indefensáveis: o impeachment e o governo de Dilma.

Eu quero que Dilma fique porque aprendi faz tempo que saber escolher seus inimigos é tão importante quanto saber escolher seus aliados.

Entretanto, existe essa parte de mim que vê Dilma não como a presidenta a quem faço oposição, e sim como uma mulher que enfrentou sozinha muito mais do que enfrentaram somados todos os homens de todos os partidos, jornais, empresas e grupos golpistas. Boa ou má presidenta, ela fez valer o artigo feminino em presidentA, até então objeto hipotético na caixa de possibilidades infinitas da nossa gramática e, principalmente, da nossa sociedade patriarcal. A existência de uma mulher na cadeira mais alta do país é um ato revolucionário em si, e a prova disso é a reação inflamada, machista, violenta, desesperada e patética da sociedade conservadora.

Por tudo isso, ainda que eu queira muito que Dilma continue na presidência — mesmo tendo certeza de que a gestão dela só vai piorar — a parte menos estratégica e mais humana de mim deseja que a Presidenta se livre do peso dessa faixa de chumbo e tire umas férias merecidas. Quem sabe o Comandante não oferece um bangalô tranquilo em alguma praia secreta do Caribe? Um tempo de sol e água fresca, longe do facebook e do Jornal Nacional, pra fazer uma hidroginástica, yoga e terapia. Exorcizar esse pesadelo, recuperar o peso perdido e escrever uma autobiografia matadora, colocando na roda os nomes e tropeços de cada um desses cretinos que rapinaram a vida dessa mulher, e só olhar pra esse lugar ingrato e rançoso outra vez quando os livros de história tiverem (se é que terão!) tempo e oportunidade pra imortalizar em suas páginas o tamanho da lambança que o país fez consigo mesmo.

Independente de qualquer votação, o que Dilma Vana Rousseff, a Mulher, merece de verdade é um pedido enorme de desculpas e o direito de voltar a respirar em paz.

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