Contra o Aumento: O MPL e as raízes da luta pelo direito à cidade

MPL e as raízes da luta pelo direito à cidade
Alckmin e Haddad decidiram fechar 2015 com o anúncio de um novo aumento na tarifa de transporte público, e a partir do dia 09 de Janeiro a passagem de ônibus e metrô passará a custar R$3,80. Isso, é claro, a menos que a população se organize pela defesa do direito de acesso à cidade em que vive. Por isso, o Movimento Passe Livre  convocou uma manifestação para o dia 08, sexta-feira, para barrar o aumento e reforçar a luta social por um transporte público gratuito e de qualidade.

Quando se fala sobre o MPL, imediatamente se levantam uma série de tabus, questionamentos, mitos e preconceitos. O assunto é longo, e já rendeu incontáveis análises, documentários, teses, livros e lendas. Por isso, vamos por partes. Este primeiro texto tratará do histórico do Movimento Passe Livre anterior às Jornadas de Junho de 2013, com um pequeno compilado de textos, vídeos e referências para te ajudar a fazer sua crítica ou defesa.
 
Para grande parte da população, a Era das Manifestações começou em 2013, quando o tal “gigante adormecido” finalmente acordou. De fato, sempre houve um gigante narcoléptico no país, roncando tranquilamente em uma cama de privilégios econômicos e sociais, e foi esse gigante, ainda um tanto cego de remela, sem formação política ou noções básicas de história, que saiu tropeçando em pautas genéricas, demagógicas e passionais, como “fora a corrupção” e pedidos de Intervenção militar, surtos psicóticos de paranoia anticomunista e ondas de linchamentos. Ao contrário destes, os movimentos sociais organizados de esquerda, e em particular aqui o MPL, seguem uma linha histórica contínua e crescente, formam suas ideias com base em muita discussão e estudo, e trabalham com pautas concretas. Ainda que a utopia seja o horizonte que se persiga e que inspire a luta, cada passo é cuidadosamente pensado, segue uma estratégia racional, estrutura propostas aplicáveis, mas traça seu caminho de acordo com as necessidades e interesses diretos da população, e não de acordo com os interesses do grupo.
 

 

O MPL, ou “Mas quem são esses vândalos, afinal?”
 
O Movimento Passe Livre é um movimento social autônomo, auto organizado e independente atuando em diversas cidades do Brasil através de um pacto federativo firmado no V Fórum Social Mundial, em 2005. O MPL não possui nenhum vínculo com partidos políticos ou organizações privadas, religiosas, ONG’s, etc. É um movimento apartidário, mas não anti-partidário, porque um Estado sem partidos políticos é uma ditadura. É um Movimento formado majoritariamente por jovens, advindos das mais diversas camadas sociais, níveis educacionais e antecedentes políticos. São punks, universitários, feministas, secundaristas, advogados, professores, sociólogos, artistas, trabalhadores e desempregados. Pessoas que se locomovem de bicicleta, ônibus, trem ou que simultaneamente possuem carro e compreensão sobre os problemas de mobilidade urbana e sua responsabilidade social. A organização funciona de modo horizontal, ou seja, não possui líderes nem nenhuma forma de diferenciação hierárquica, todos tem o mesmo poder e suas decisões são tomadas de forma coletiva.
 
Um dos enganos mais frequentes cometidos por quem não participa de movimentos sociais é acreditar que eles existem apenas durante protestos. O MPL, como todo movimento organizado, trabalha durante o ano inteiro, fazendo palestras, produzindo material informativo, discutindo pautas em conjunto com outros movimentos sociais, montando propostas políticas que tenham bases econômicas e sociais sólidas, de modo que suas reivindicações sejam aplicáveis. Isso é algo importante de se ter em mente, uma vez que é muito comum que comentaristas pouco informados (ou mal  intencionados) chamem esses militantes de “vagabundos”, “desocupados” ou “desvairados”, pra ficarmos apenas nas ofensas mais gentis.
 
A militância desse grupo envolve muito estudo, planejamento, participação nas instâncias burocráticas da política, atuação comunitária, trabalho intelectual e braçal. É um trabalho sério, não remunerado, que oferece riscos altos e um desgaste emocional intenso, e essas pessoas fazem esse trabalho hercúleo enquanto cumprem também seus papéis como estudantes e trabalhadores. Por isso eles sabem o que estão falando. Conhecem o sistema, porque o dissecaram em incontáveis e exaustivas reuniões, assembleias e grupos de estudo e, acima de tudo, porque são eles, e não os governantes e diretores de empresas de transporte, que atravessam a cidade de ônibus, metrô e bicicleta todos os dias, que vivem em simbiose com a cidade e sabem a parte dela que lhes falta. Eles tem conhecimento, experiência e dedicação  ao que fazem, não por dinheiro nem por fama, mas por paixão, necessidade e responsabilidade social.
 
Para conhecer o MPL:
  • Site do MPL Nacional e do MPL de São Paulo, no qual há links para páginas do movimento em diversas cidades. Os sites estão desatualizados, mas possuem um acervo valioso de materiais.
  • Site do Tarifa Zero,
  • Essa entrevista curtinha com o professor Vladmir Safatle
 
 
 
  • Essa entrevista com a militante Mayara Vivian na TV Camara
 
  • Mini-documentário ZeroVinte, feito pela Carta Capital
 
  • Entrevista do militante Marcelo Hotimsky à Carta Capital
 
  • A entrevista concedida por Nina Cappelo e Lucas de Oliveira ao programa Roda Viva, em 17 de junho de 2013
 

 

 

 

Antes de 2013, ou “de onde é que saíram esses desocupados”?
 
Ao contrário do que muita gente pensa, o MPL não surgiu durante os protestos de 2013, e não foi com ele que surgiu a luta contra a exploração capitalista do transporte público. O episódio que inspirou a luta pelo transporte democrático no país aconteceu em 2003, em Salvador, e ficou conhecido como A Revolta do Buzu. Em seguida ocorreram as Revoltas da Catraca, em Florianópolis, durante os anos de 2004 e 2005.  Vale a pena assistir o documentário sobre a Revolta do Buzu, bem como ler o Livro A Guerra da Tarifa, de Leo Vinícius, sobre a luta em Floripa, para entender os antecedentes da questão.
 
É preciso entender o histórico da luta dos movimentos sociais, e aqui especificamente por mobilidade urbana, para que se veja os protestos e os decorrentes avanços e retrocessos políticos e ideológicos de então até agora como um movimento contínuo de transformação da sociedade, pra que se tome consciência a sua dimensão e importância.
Para compreender a estrutura e objetivos do Movimento Passe Livre, está disponível a Carta de Princípios no site do MPL. E se ficar dúvida sobre quão ativo era o movimento antes de 2013, sugiro:
 
  • esta página do jornal O Independente, sobre a penária de fundação do MPL em Florianópolis, durante o Fórum Social Mundial de 2005
  • Este outro texto de 2008, no qual o MPL fala sobre o projeto Tarifa Zero, proposto em 1991 pela gestão Luiza Erundina e o consequente desmantelamento do projeto nas gestões Marta e Kassab.
  • Em 2009 o MPL escreveu este texto sobre Mobilidade Sustentável, no qual discute a intermodalidade entre tipos de transporte (como bicicletas e ônibus), bem como apresenta uma análise de caso da cidade de Hesselt, na Bélgica, que oferece transporte gratuito desde 1997, e de como esse modelo poderia ser aplicado por aqui.
  • Em 2009 os militantes do MPL se acorrentaram à prefeitura de São Paulo para contestar outra elevação no valor da passagem anunciado por Kassab, e escreveram este texto sobre o aumento da tarifa
  • Em 2012, ano de eleições, o MPL lançou este texto importantíssimo pra se entender o contexto de lutas por transporte que antecederam mais diretamente os protestos de junho de 2013. O texto relembra diversos outros acontecimentos ligados à luta por mobilidade acontecidas naquele ano, como o Churrascão da Gente Diferenciada, as manifestações no M’boi Mirim, a greve de metroviários em que foi proposta a abertura de catracas ao invés da paralisação, e o episódio de revolta popular em que passageiros destruiram as catracas das estações Francisco Morato e Caieiras da CPTM. Fazem também um balanço muito preciso das propostas de todos os então candidatos à prefeitura de São Paulo, e concluem que nenhuma delas é satisfatória.
  • Por fim, estas galerias de fotos sobre os protestos de 2006, de 2010 e este dossiê completo sobre os protestos de 2011
 
O Movimento Passe Livre escreveu, no belíssimo texto Não começou em Salvador, não vai terminar em São Paulo, a melhor definição de si:
 

Como um fantasma que ronda as cidades deixando marcas vivas no espaço e na memória, as revoltas populares em torno do transporte coletivo assaltam a história das metrópoles brasileiras desde sua formação. Os bondes virados, os trens apedrejados, os ônibus incendiados, os catracaços, os muros “pixados” com as vozes das ruas, as barricadas erguidas contra os sucessivos aumentos das passagens são expressão da digna raiva contra um sistema completamente entregue à lógica da mercadoria. […] E, no momento que se fortalecem as catracas, as contradições do sistema tornam-se mais evidentes, suscitando processos de resistência. É em meio a essa experiência concreta da luta contra a exclusão urbana que se forjou o Movimento Passe Livre.”


Participe do Ato contra o aumento da tarifa 

 
 
 
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