Sobre o 11 de Setembro e Consciência de Classe



Em 11 de Setembro de 2001 eu estava no 1º colegial, estudando em uma escola técnica de São Paulo. O colégio, apesar de público, era lotado de playboy, porque pra ingressar era preciso fazer um vestibulinho, e vocês sabem como gente que pode pagar o Bandeirantes gosta de ocupar as vagas dos poucos colégios e universidades com estrutura decente na rede pública.

Eu tinha dois ou três bons amigos da vida vira-lata estudando em outras classes, mas na minha sala me lembro de pouquíssimos filhos da escola pública, e apenas dois elementos mais ideologicamente destoantes dos demais. Um deles era eu, um adolescente cdf anarquista que tomava dois ônibus intermunicipais lotados e chegava atrasado todas as manhãs, com os coturnos imundos do caminho lamacento de Vargem Grande Paulista; o outro era um cdf coroinha comunista da zona leste, que remendava os óculos com durex e falava de amor divino e de luta de classes ao mesmo tempo.
Eu e o Coroinha nunca fomos grandes amigos, e acho que a culpa foi minha. Eu estava naquela fase metalerobesta que muitos entram aos 15 anos e da qual boa parte nunca mais sai, quando começamos a ler meia dúzia de orelhas de livros de filosofia e infernizamos o coleguinha que acredita em alguma forma de deus, recitando os crimes da igreja católica e contradições da bíblia, como se a espiritualidade alheia se resumisse a isso, ou como se a descrença e o deboche tornassem alguém mais inteligente. Anyway…
Nós convivíamos com aquela tensão esquisita, eu e o Coroinha. Não éramos amigos, mas talvez soubéssemos que de certa forma nos entendíamos, porque quase todos os outros colegas de classe estavam muito preocupados com viagens de fim de ano ou a carreira dourada meticulosamente planejada, enquanto nós queríamos mesmo era a destruição do Status Quo vigente, Derby vermelho e talvez um lugar pra almoçar que não cobrasse seis reais por um misto quente. E seguimos assim, uma dose de respeito, uma dose de despeito, até aquela manhã em que Osama Bin Laden sacudiu o mundo com uma mensagem de sentido desconcertantemente ambíguo.
Naquela manhã foi o Coroinha quem chegou atrasado. Ele entrou na classe agitado, interrompeu o professor e disse que os Estados Unidos estavam sendo atacados. Repetiu coisas sobre o World Trade Center e Pentágono em chamas, e nós não sabíamos bem o que estava acontecendo, mas parecia que o Bush estava apanhando, e isso era suficiente. Ele era um menino magricelo, cabelo tijelinha e os óculos grandes demais pra aquele nariz pequeno, mas lembro como ele crescia quando falava sobre as coisas importantes do mundo. Então eu me levantei, e nós nos abraçamos. Na hora, claro, não pensamos nas vítimas, nem em análises de conjuntura política, no medo da possibilidade de uma terceira guerra mundial ou na insensibilidade diante da morte de civis inocentes. Puro instinto. Me lembro de um momento de constrangimento depois daquilo, quando percebi que o resto da classe realmente não partilhava do nosso júbilo camaradístico, e depois o professor nos mandou parar com aquela babaquice e prestar atenção na aula, mas eu não consegui. Acho que ninguém conseguiu, não importa qual fosse a razão.
No dia seguinte, os ânimos mais frios, o mundo estava em luto, chocado com a brutalidade dos ataques que vitimaram tanta gente, e nosso professor de história, um sujeito que deve ter batido muita panela nos ultimos meses, tentou levantar uma pequena discussão sobre a tragédia, preocupado com o estrago emocional que aquelas cenas de prédios implodidos em repeat nos jornais teriam gerado nas mentes jovens. Talvez parte deles tivesse parentes estadunidenses, talvez outros guardassem boas lembranças de algum natal nevado no Central Park, mas acredito que a maioria só ficou mesmo muito chocada com a ideia de que pessoas parecidas com eles pudessem morrer de um jeito violento e injusto em nome de política ou religião.
Hoje entendo que aqueles colegas simplesmente não faziam ideia do porquê eu e o Coroinha reagimos daquele jeito. Hoje entendo, também, que ser anti-capitalista e criticar as posturas imperialistas de um governo assassino que pratica e patrocina terrorismo em todos os cantos do mundo é uma questão de decência e coerência, mas que o governo e os mega empresários dos EUA não representam todo seu povo, e que grande parte daquelas vítimas poderiam ser, também, vítimas daquele mesmo governo, vítimas de racismo, vítimas de machismo, vítimas do capitalismo, que só tiveram o azar de nascerem tortos em uma terra Direita e profundamente desigual.
Sobretudo, hoje entendo as razões que levaram meus colegas, junto com o resto do “Mundo Civilizado”, a chorarem pelos norte-americanos mortos. Meus colegas não eram estadunidenses, e possivelmente boa parte deles só conhecia o país pela televisão – à cabo, claro -, assim como nós não éramos talibãs e na época não conseguiríamos apontar o Afeganistão em um mapa. Acho que é a mesma razão que faz com que o mundo se choque com os doze mortos do Charlie Hebdo e ignore os dois mil mortos pelo Boko Haram na Nigéria na mesma semana, ou se choque com a questão dos refugiados sírios quando um bebê de pele branca é fotografado na praia em uma posição socialmente aceitável, mas não se importem com os outros milhares de refugiados afogados nos mesmos mares nos meses anteriores. É o que faz com que se ignore os índios assassinados por latifundiários ou as crianças negras dormindo na rua, atrapalhando o caminho entre a Sala São Paulo e o restaurante de luxo, mas se solidarizem com o colega que teve o carro roubado. É o que faz alguns serem Deboístas e outros Tretaístas. Uns soltam pombas brancas, outros picham muros. Uns pedem ditadura e aplaudem a polícia, enquanto outros vêem guerreiros da liberdade onde os primeiros vêem terroristas.
Foi meu primeiro e último ano naquele colégio. De lá, nunca mais tive contato com ninguém. Os professores não recebiam muito bem as minhas “controvérsias”, e eu fui colocado de volta no meu devido lugar, junto dos “meus”.
Não adianta dizer que não é uma questão de escolher lados, porque é. São muitos lados. Eu não sou afegão, como não sou indígena, como não sou negro, como não sou sírio, como não sou morador de rua. Eu tenho milhares de privilégios que me aproximam dos meus ex-colegas chocados. Eu sou homem, branco, hetero, universitário. Eu não sofro racismo, não fugi do meu país por causa de guerras e não corro o risco de ser assassinado por uma bomba americana ou pela polícia paulistana. Ainda assim, eu também sabia que não era um “deles”, como eles sempre deixaram claro. Talvez seja essa a primeira diferença, antes de nos darmos realmente conta das estatísticas e fatos históricos, que faz com que você saiba por qual sangue se chora. Mais tarde as coisas deveriam ficar mais claras, e nós fazemos as nossas próprias escolhas sobre o que é certo e o que é errado, mas isso é só mais tarde, e algumas vezes é tarde demais.
No dia 11 de Setembro de 2001 eu tive uma das melhores aulas que a escola já me deu.
 
 
 
P.S.: Nunca é demais reiterar que não, eu não sou Taliban, não comemoro a morte das vítimas do 11 de Setembro norte americano e não estou filiado a nenhuma célula terrorista no presente momento.