Sobre poços e ideias

Eu sempre paro de escrever pelas mesmas razões que começo: é perigoso estar muito tempo sozinho com seus pensamentos.
Idéias são coisas selvagens que se fagocitam e metastaseam, criam organismos complexos, ecossistemas, cidades, monumentos e catástrofes naturais no universo particular de cada um de nós. Algumas, é possível domesticar, estudar, dissecar e catalogar; outras, aprender os seus idiomas e costumes para contemplar mitologias e novas antigas dúvidas; e há as predadoras, bactérias devoradoras de espírito, das quais a defesa é a amputação seguida por cauterização em fogo muito, muito lento. O papel e a tinta são laboratórios onde se pode analisar lâminas de ideias em estado ideal, e o mundo lá fora é essa infinita Ilha de Galápagos. As vezes, no afã de Fausto, ocorrem vazamentos toxicológicos, ou uma tartaruga anciã ataca e devora um naturalista distraído e, quando isso acontece, entramos em quarentena. 
Estar no Cairo é uma coisa confusa. Suponho que algumas pessoas sejam capazes de tirar os dois pés do chão e caminhar com passo firme sobre resoluções sólidas, mas eu mantive um pé aqui e outro aí, e assim fiquei parado, observando e tomando nota de um Nilo de devir a passar por entre as minhas pernas. De casa, as pessoas me mandam notícias sobre como estão desabando, perdidas nesse turbilhão de violência e retrocesso que come a razão e a humanidade do meu povo. Aqui, a mudez, o medo e o consentir envergonhado, ditaduras e dogmas encrustrados na esperança hesitante de que amanhã será melhor. Estar sem estar é ser espectro, espectador, soprando  e colhendo ecos.
Então parei de escrever, e fiquei algum tempo no escuro, catando e catalogando ecos em pedaços de passado e indícios de talvez, como borboletas espetadas num pedaço de cortiça.
Amanhã volto ao Brasil, e desconfio que algumas coisas vão começar a se esclarecer, e conforme as ideias forem me aceitando entre elas, conforme  as histórias emergirem da massa de cacofonia, colocarei novamente o bisturi no papel. É perigoso, vocês sabem, ficar muito tempo sozinho com os próprios pensamentos.
Meu erro aqui foi tentar forçar o caminho sem estrutura.
Quando escolhi o nome do blog, optei pelo plural porque não pensava apenas no que estudava. Pensava nas minhas próprias descolonizações, o processo de desconstruir minhas seguranças e certezas, compreender e combater meus preconceitos e privilégios, sobrepor as peças que encontrava nessas viagens e nas coisas que aprendi aqui, lá e aí, e compartilhar esse processo pra, talvez, ajudar mais alguém a domesticar as próprias ideias. Então, voltando aos eixos, quero retomar esse blog, daquele jeito que ele deveria ter sido.
Amanhã é um recomeço pra mim, um tipo de ano novo, e, sabendo que amanhã o mundo continuará o mesmo, e que as minhas voltas e reviravoltas não afetam a rotação dos astros, o fluxo das avenidas ou o café com pão de mais joão ninguém, é de bom agouro espetar esse momento, borboleta rara, neste pedaço de cortiça. 
 
Atiramos moedas da sorte em poços sem fundo desejando um gole de esperança entre a seca e a sede de uma estrada ou outra.

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