Cacos no deserto



Passei um tempo sem escrever neste blog, sem escrever meus diários e sem responder recados (peço desculpas se te ignorei, não foi por mal). Passei muito tempo sem frequentar meus sapatos, o relogio ou o sol que, insensível, insiste em brilhar lá fora.
No começo, parei de dormir. Depois parei de conversar, de tomar água e de sentir o gosto do café e do cigarro. Ceguei para o movimento da música e esqueci o suave do silêncio. Abidiquei do travesseiro, mas os pesadelos não abdicaram de mim. A translucidez inefável da queda sem alvo. Parei de sentir, e nem sequer senti quando se foi.
Não consegui mais ler as notícias do apartheid na Palestina, das cabeças baixas no Egito, do medo em marcha no Brasil, da indiferença na minha casa. Não consegui mais ordenar palavras, transitar idiomas, atravessar a rua.
Não consegui fingir que a distância suspendia o passado, que solidão era sabedoria, que barulho era harmonia, que tinha superado, aceitado, entendido, crescido. Mentir cansa.
Depois, não consegui mais. Não podia sair do bairro, depois de casa, depois do quarto, depois da cama. Senti as artérias das pernas gelarem e o cimento escorrendo grosso por dentro, pesando o passo. O ar escasso, a mente confusa, queria pensar Ordem, pensava Cor, pensava Ruído, pensava Medo, mas dissolveram-se as palavras que represavam a substância, vazando pelos cantos dos lábios, pelas frestas, a substância oleosa invadindo os pulmões, afogando o cérebro, os músculos inundados, rigor mortis mastigando movimento, arame farpado torcendo por dentro pescoço pernas mãos panturrilhas coração. O peito vazio, os ossos frágeis: uma corrente presa por dentro ao tórax oco, costelas arrastadas pra coluna, entortando o esqueleto, carcaça de sucata, ferrugem, fraqueza, rangendo e cedendo, cindindo tempo e espaço entre o ser e o não ser.
Já não podia mais falar outras línguas que não fossem a minha, e ninguém mais falava minha língua, dialeto balbuciado na sintaxe da saudade, tão carente de formas imperativas que não as conjugações negativas da ordem e da forma, subjuntivação descoordenada da morfofagia auto-referencial.
Que falta faz rachar uma pizza na sexta-feira, terapia de vinho e sofá, conversar pelo olhar, comunhão de lutas, comentar o último capítulo da novela. Que falta faz um sorriso soslaiado no vagão do metrô que valesse dois versos vagabundos. Nenhum sorriso que não os congelados, virtuais, estáticos, sem contexto, sem mãos, pré-cozidos, sem som ou sabor. Que falta faz a docilidade do movimento labial de abrir o céu e desassombrar os solitários.
Nada além de fibra ótica e jornalismo sujo.
Nada além de smiles, likes, emoticons e shares.

Nada além dos oceanos e desertos dentro deste passaporte apertado contra o peito apertado.

Acabaram os analgésicos para domesticar o passado latejando na corcunda, rosnando, gritando, metastaseando e ordenando:
Leia-me!
Vista-me!

Mate-me!

Aceite-me!
Seja-me!
Ame

se…
Se fosse tão fácil…
Se fosse tão fácil não seria real.
Se fosse fácil seria fuga, filme da disney, pipoca de micro-ondas, manual de auto-ajuda, comercial de banco, generais fazendo guerra atrás de mesas de mogno.
É uma utopia.

Eduardo Galeano conta que um estudante colombiano perguntou a Fernando Birri pra que servia uma utopia:

A Utopia está no horizonte, e eu sei que nunca vou alcançá-la, porque se caminho dez passos, são dez passos que o horizonte se afasta. A Utopia é inatingível”.

Pra que serve a Utopia?
Pra continuar a caminhar”.
As pernas engessadas, a mente torpe, lágrimas rasgando retinas, aranhas na garganta, o quarto escuro, a cama suja, três dias sem tomar banho, roupas ensebadas, o barulho lá fora.

Lá fora, tempestades de areia embegecendo o horizonte, e os sorrisos plásticos na janela de LCD vomitando as notícias do colapso da civilização.

E aqui dentro…

Aqui dentro cato cacos de utopias nas ruínas que o vento escavou.

Utopias não são fáceis. 

Se fossem fáceis não fariam caminhar, quando é tão mais confortável criar raízes, trancar baús, queimar arquivos, chorar pelo hino nacional, bater cartão de ponto, falar do amor de deus, odiar o próximo como se odeia a si mesmo. É facil negar-se a si mesmo.


Para caminhar é preciso ficar nu, reler bilhetes rasgados, sentir-se ridículo, comer o pão que você amassou no prato em que cuspiu. É preciso estilhaçar-se, engolir os pedaços, deglutir-se, chupar os ossos, ferver as entranhas, regurgitar-se, ler o passado embolorado nos intestinos, cagar para os conselhos seguros.
É preciso fazer luto, beber cachaça e sepultar-se numa história que possa ser contada, dissecada, exposta, vivida, canibalizada em todas as quartas de cinzas. Uma história urna funerária, onde a dor contada e contida seja bela e viva como natureza morta.
Pra continuar a caminhar.


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