Tão pouco e tanto

[ SPOILER: o post a seguir contém muito mimimi e um pouco de <3 ]
Drummond disse que escrever é triste, e acho que ele estava certo.

Desde que me lembro, a primeira coisa que quis na vida foi ser escritor. Ao longo do tempo, quis ser cientista&escritor, fotógrafo&escritor, vagabundo&escritor, ativista&escritor, escritor&eu. O primeiro conto que me lembro de escrever, aí por volta dos dez-onze anos, era sobre pesadelos de guerra de um soldado. Esse pedaço de papel já não existe faz muitos anos, e devia se parecer muito com os clichés que aprendíamos nos desenhos animados feitos pra vender brinquedos e adestramentos nas manhãs de TV aberta, mas lembro que a sensação foi boa.
Escrevi pilhas de cadernos que mofaram e morreram nas muitas casas que ficaram pra trás. Publiquei um blog de contos, um texto em uma coletânea péssima, uma crônica em uma revista dessas que se distribuem gratuitamente em portas de universidades junto com flyers de baladas e promoções de xerox para estudantes, mas não virei escritor. Estudei Jornalismo e depois Letras, quase como que por consolação, como um desses malucos que perseguem astros do rock pra lamber de suas pegadas as migalhas do talento que sobra a um e ao outro falta. 
Uns com tanto, outros com tão pouco…
Mas o tempo me ensinou que escrever é triste, porque não é sobre livros publicados ou noites de autógrafos. Não digo, com isso, que quem escreve não o faça por vaidade, claro que não. A vaidade é alimento e combustível, e o espírito colhe sua vaidade diária em espelhos e diplomas, carros e cheques, músculos e cabelos pintados de azul, e também em neuroses ordenadas num espaço em branco. Mas a vaidade é triste, ainda que necessária, porque é reboco cuspido sobre rachaduras, áspera e indisfarçável. Defende as fendas do vento, mas não desfaz a ferida. Só disfarça.
Escrever é isso.
Escrever é triste, porque quem escreve soluça silêncios, sangra sozinho numa folha as ânsias e alegrias não ditas em voz, seja por falta de ouvidos, seja por falta de estômago. É o caldo de jornais caminhados, passeios lembrados, memórias relidas, angústias e medos: O Medo de não entender, de não ser entendido, de que os outros não entendam o que você entendeu sobre o que eles talvez nem queiram entender. E então escreve-se, quase como que por consolação. Mais um desses malucos que perseguem palavras como que pra lamber de suas pegadas as migalhas de sentido que sobram às histórias e faltam aos viventes. 
Uns com tanto…
Escrevo como quem caça migalhas. Meus cadernos, tatuados de mim, ordenam sentidos mas não pagam vaidades. Então mostro pra o mundo meus soluços e poemas, análises de conjuntura política e as opiniões que ninguém me pediu, com o mesmo entusiasmo e receio que tive aos dez-onze anos quando mostrei pra minha mãe meu primeiro conto. Um desses malucos que perseguem leitores como que pra lamber de suas pegadas migalhas de compreensão. 
Tão pouco…
Eu queria dizer que não, que não é verdade. Queria dizer que escrevo por um motivo mais nobre, livre de arrogâncias e carências, mas a verdade é que passar os dedos pelo teclado é uma consolação, como se plástico fosse pele e tela fossem olhos. Escrever em cadernos e deixar a poeira germinar é gritar embaixo d’água, enquanto que esse novo mundo de sociedades e amores líquidos concede a concretude do eco na resposta virtual de um clique. É pouco, mas é tanto…
É solitário estar longe, e a lonjura das pessoas não se mede como a das coisas. Não em kilômetros, mas em olhares. Não em metros, mas cervejas no fim da tarde. Não em centímetros, mas em olás, como vai você? 
Tão pouco, mas tão pouco…
Escrever é triste, porque é uma tradução resmungada e imprecisa do que não deveria precisar ser dito, do óbvio ululante pulando aos olhos leitosos de uma catarata de indiferença.
Escrever é triste, como é triste pensar sem dizer, sentir sem beijar, porque é solitário.
Às angustias, ouvidos
Às bocas, beijos
Às palavras, ecos
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Escrevi tudo isso só pra dizer que vocês que leem o que eu escrevo e me dão a concretude do seu eco, seja no blog ou na tela azul, fazem a lonjura de escrever se parecer um pouco mais com olhares, cervejas no fim da tarde e olás, como vai você?, e que as migalhas nas pegadas florescem vaidades e vontades que fazem valer a pena a tristeza de quem escreve.
Tanto…
Escrevi isso hoje porque sou prolixo e não consegui achar outro jeito de contar pra vocês que a Elise, num dos gestos mais bonitos que já fizeram por mim, comprou e me deu de presente o domínio do meu blog, que agora eu digito [descolonizacoes.com.br] e lembro que tem alguns alguéns que se importam com o que eu escrevo, que a sensação é parecida com aquela de quando minha mãe colocou meu primeiro conto na porta da geladeira, como se eu fosse um escritor, e que a sensação é boa.

Escrever é triste, mas nem sempre é de tristeza que a gente chora.


3 comentários sobre “Tão pouco e tanto

  1. Oi Zuní! Tava aqui lendo seu texto e pensando que sim,por vezes escrever é um processo solitário, às vezes também é triste sim, mas sempre vi a escrita como escape dessas dores, ao escrever desfaço as tristezas e as converto em alegria, transformo a dor se necessário for em poesia, escrever alegra a alma, revigora o espírito, e mostra que a dor não é de todo inútil, ela também serve de inspiração, de motivação. Por tanto continue escrevendo, acredito que quando a gente escreve o que vem de dentro tudo passa a ter sentido, nem todas vão entender é verdade, mas é que o texto não foi escrito para esses. E essa é a magia do escrever, o incrível poder das palavras!

    Abraços!

    joandersonoliveira.blogspot.com.br

  2. Zuní querido, gostei e concordo com tudo o que li, e acredito que sempre que alguém me fala: Porque você não "vira" escritora?, elas não fazem ideia do que dizem, não acredito que alguém vire alguma coisa, acredito que nascemos com a essência da coisa e eu infelizmente, ou felizmente, não tenho essa essência, ao contrário de você que transborda talento em cada linha.

    Parabéns meu bem, e a partir de agora tem em mim uma leitora assídua de seu blog.
    http://cabinedeleitura1.blogspot.com.br/

  3. Oi Zuni, primeiramente quero te agradecer a visita ao Mesa, fiquei muito contente que alguém tomou seu próprio tempo para ler o que eu escrevi e nossa, como você transpareceu a mesma ideia que eu num post desse semana. http://mesadecafedamanha.blogspot.com.br/2015/05/sobre-ter-um-blog.html, o qual fiquei pensando sobre ter um blog e o próprio ato de escrita.
    Escrever é, sim, triste, um ato solitário, mas um ato que se compartilha e, mesmo que sejam apenas uma ou duas pessoas, que toquem tais vidas. Essa amiga sua que comprou o domínio para você nada mais quer dizer que "abram-se as portas, você tem muito mais a dizer, para muitos outros que precisam ouvir."
    abs

    http://mesadecafedamanha.blogspot.com.br

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