O papel dos corpos femininos na revolução do Egito

*Texto de Vanessa Bordin
 

Grafites sobre as ativistas feministas egípcias Samira Ibrahim e Alia el Mahdy

Muito tem sido escrito e discutido ultimamente sobre ‘a mulher muçulmana’. Apesar disso, a individualidade e capacidade de agência dessas mulheres não é facilmente reconhecida. É essencial que fique claro que meu objetivo, através deste texto, é fazer uma breve análise, do meu ponto de vista, sobre a presença do corpo da mulher na esfera pública, usando o contexto do Egito. Minha tentativa não é de representar a voz dessas mulheres, muito menos generalizá-las. É preciso saber, portanto, que a situação das mulheres precisa ser analisada dentro de um contexto geográfico específico, considerando diferenças de classe, etnia, religião e orientação sexual, sem deixar de lado fatores políticos, econômicos, sociais e culturais, o que possibilita uma análise contemplativa, mas que, simultaneamente foge de generalizações e essencialismos que tendem a ocultar as diversidades, complexidades e a capacidade de agência dessas mulheres.

De símbolo de nações e culturas à ferramenta de resistência e subversão de regras, o corpo é central na análise dos eventos de 2011, no Egito. A presença do corpo feminino da esfera pública é disciplinada e regulamentada, incessantemente, por discursos religiosos, nacionalistas e culturais, sancionados por uma cultura patriarcal. A participação das mulheres na demanda por democracia e justiça social no país foi essencial para que o movimento ganhasse força e se tornasse inclusivo, o que de fato aconteceu durante os primeiros dias de protesto. Enquanto algumas mulheres protestavam por mais liberdade e igualdade de gênero, outras se opunham às atuais políticas de um regime neoliberal que havia desvalorizado as tradições e laços familiares. Porém, em meio a tantas demandas, terminada a mobilização, as mulheres foram literalmente excluídas de toda e qualquer representação. Das ruas do Cairo aos órgãos políticos que reescreveriam a constituição, as egípcias passaram a sofrer ameaças e intimidações, o que daria início a discussões e debates sobre o ‘papel’ do corpo feminino na revolução. Esses corpos, que um dia mobilizaram e foram mobilizados, passaram, então, a ser marginalizados e negados qualquer engajamento na estrutura política do país. Estupros, assédios e agressões, direcionados a ativistas ou qualquer mulher que subvertesse às regras patriarcais, demonstram a forma como os corpos femininos foram constituídos e construídos como cenários, através de discursos religiosos, militarismo, nacionalismo, e, não menos, sexualidade, no contexto da revolução egípcia de 2011. Essa forma de disciplina atribuída aos corpos femininos (e que não se limita ao ‘Oriente Médio’1) tem como objetivo afastar da esfera pública o que é geralmente relacionado ao não racional, ao não-masculino, ou seja, a exclusão de corpos transgressores que devem ser domesticados e, a rigor, devidamente alocados na esfera privada: o eterno feminino.
 
Conforme a teórica Judith Butler, a ordem, dentro de um regime, só é atingida através de uma síntese simples que demarca claramente os limites entre o dentro e o fora, o acima e o abaixo e o feminino e o masculino. Dentro deste contexto, abordarei dois casos que chamaram atenção durante a revolução de 2011, enquanto aponto para alguns discursos teóricos que tentam explicar ostensivamente a relação entre os discursos ‘culturais’ inscritos no corpo e as práticas regulatórias que os normalizam.

Samira Ibrahim

 
Há aproximadamente quatro anos atrás, no dia 9 de março, Samira Ibrahim, egípcia, de 24 anos, participava de um protesto pela igualdade de gênero na Praça Tahir, no Cairo, quando foi presa com outras mulheres. Todas elas foram levadas ao Museu do Cairo, onde foram espancadas, eletrocutadas e torturadas por soldados militares. Como estratégia para incriminá-las, os soldados as obrigaram a posar ao lado de coquetéis molotov, acusando-as de transgredirem às regras do governo. Samira e as outras mulheres foram, então, levadas e separadas em duas filas. A primeira das “mulheres” (não virgens) e outra das “meninas” (virgens). As meninas foram levadas para salas onde foram obrigadas a se despir completamente para depois serem examinadas e filmadas por vários soldados enquanto passavam por testes de virgindade.
 

Samira Ibrahim

Posteriormente, o general responsável pela operação alegaria que “essas mulheres não são como nossas filhas. Elas acampam na rua e protestam ao lado de homens”. O argumento para justificar os testes era de que os soldados não queriam sofrer acusações falsas de estupro. Seguindo essa lógica, o médico que fez o teste de virgindade perfurou o hímen de Samira para que ela não pudesse o acusar de estupro, pois, não sendo virgem nem casada, qualquer acusação seria falsa. Ao contrário do que era esperado, Samira buscou meios legais e levou o exército Egípcio ao tribunal. O homem que fez o teste foi absolvido de estupro e acusado de “indecência pública” e “desobediência a ordens militares”. Alguns argumentam que Samira foi ingênua ao tentar usar o mesmo sistema que a havia oprimido para buscar justiça. No entanto, ela tornou-se um ícone na revolução do de 2011 e o caso dela trouxe atenção internacional à difícil condição das mulheres no Egito.
 

Aliaa Al Mahdy

 

Alia el Mahdy

Outro caso que teve repercussão foi o de Aliaa Al Mahdy. Jovem ativista egípcia, Aliaa postou em seu blog uma fotografia na qual usava apenas uma meia-calça, sapatos e uma flor vermelha no cabelo. Seu corpo exposto e vulnerável contrastava com a expressão que tinha no rosto. Desafiadora, subversiva, ela deslocou todos os ‘valores’ até então historicamente inscritos em seu corpo e reapropriou-se deles, praticamente debochando do regime.
 
 
Ao contrário de Samira Ibrahim, o ativismo de Al Mahdy não foi bem visto pela maior parte dos setores da sociedade egípcia, incluindo os mais liberais, que foram os primeiros a condenarem suas atitudes como inapropriadas. No entanto, de acordo com Al Mahdy, tirar a roupa não foi uma estratégia para chamar atenção do público masculino, muito menos causar algum tipo de desejo. Foi, ao contrário, um ato de resistência e liberdade de padrões hegemônicos impostos por uma sociedade patriarcal.
 
Al Mahdy, que sofreu ameaças de morte no Egito, encontra-se atualmente na Suécia, onde solicitou asilo político. Houve, inclusive, uma solicitação para que a cidadania egípcia de Al Mahdy fosse revogada, demonstrando claramente a hipervisibilidade de alguns corpos em relação a outros.
 
 
A este ponto, a pergunta que fica é: qual foi/continua sendo o papel dos corpos femininos na revolução do Egito, em 2011? E, mais importante, como esses corpos são, ao mesmo tempo, controlados, regulados e disciplinados pela convergência de múltiplos discursos patriarcais, religiosos e de masculinidades, mas são, também, superfícies onde nascem revoluções e conflitos? Existe alguma diferença entre transgredir normas de gênero e normas sexuais nesse contexto?
 
Samira Ibrahim, apesar de ter ido a público sobre o evento de seu estupro, teve apoio popular e tornou-se um ícone na luta por justiça e democracia no Egito. Suas contestações, conforme a maioria, foram feitas por motivos políticos e o Estado foi o acusado de ter violado seu corpo. O ativismo nu de Al Mahdy, por outro lado, violou as tradições e normas da sociedade egípcia. Através de um ato performático, Al Mahdy pôs em debate a comodificação do corpo feminino e marcadamente balançou as estruturas de uma nação que tem como base sustentar esses contornos fixos e sua sexualidade compulsória, assim como sua limitação à esfera privada. São, portanto, essas relações de poder, controle, regulação, desejo e expressão afincadas num corpo inundado de práticas reguladoras e fardos de autenticidade cultural, que fazem da sexualidade uma ferramenta significativa de contestação. É como se o corpo feminino fosse, ao mesmo tempo, a representação de valores sociopolíticos hegemônicos e o instrumento utilizado pelas próprias mulheres que lutam contra esses valores.
 
Como estudantes, entusiastas ou apenas defensores da igualdade de gênero, normalmente negamos argumentos naturalistas e baseamos nossos entendimentos na frase que diz que ‘gênero é socialmente construído’. É importante, entretanto, considerar que, mais que um corpo inerte receptor de valores culturais e sociais, somos também agentes de nossa própria formação. Pessoalmente, considero essencial fugir de dualismos problemáticos que nos levam, inevitavelmente, a hierarquias implícitas. Butler, por exemplo, problematiza a noção de construção social e considera que agência acontece exatamente no momento da construção do gênero ao qual somos atribuídxs, enredada, não menos, às relações de poder. No contexto da revolução de 2011 no Egito, fica clara a importância da fluidez assim como temporalidade dos discurso que moldam mas que, ao mesmo tempo, são criados através de e pelos próprios corpos. Ambas, Samira e Al Mahdy, fizeram uso de um instrumento que toma as próprias fronteiras como superfície à qual são atribuídos inúmeros valores e discursos, e reescreveram novas percepções sobre o significado do corpo feminino na esfera pública, criando potencial para resistência assim como para desafiar noções que constroem o corpo feminino como pertencente à esfera privada. Ao meu ver, através desses atos, que evidenciaram a descontinuidade e contestaram a coerência dos discursos e significações atribuídas ao corpo feminino, Samira Ibrahim e Aliaa Al Mahdi obrigaram, mesmo que de maneiras distintas, uma grande parcela da sociedade a repensar os limites da presença da mulher na esfera pública.
 
 
 
 
Referências
Butler, J. (1999). Gender trouble. New York: Routledge.
 

 

1 Me refiro ao ‘Oriente Médio’ desta forma, pois acho insuficiente que apenas critiquemos as generalizações atribuídas à região, sem ao menos problematizar o termo e o fardo de estereótipos que o acompanha.
 
 
*Vanessa Bordin é mestranda no Centro de Estudos de Gênero da SOAS (School of Oriental and African Studies)
 

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