Não, nós não somos as salvadoras das muçulmanas – por Priscila Bellini

Olhando assim, parece uma constatação óbvia. Entretanto, não faltam exemplos de como as feministas ocidentais encaram a vivência de mulheres muçulmanas – em especial, as que estão no “Oriente”, e mais especificamente as mulheres árabes. E falo isso com conhecimento de causa, visto que caí nessa muitas vezes. Eu me lembro claramente de ler, quando tinha meus 12 anos, os relatos sobre o quão opressor era o lado de lá, o quanto as moças estavam rendidas e quietas. Naquela época, li os textos da Ayaan Hirsi Ali e pronto: aquilo parecia suficiente para encarar as muçulmanas como um grupo cuja opressão duraria para sempre, caso não houvesse uma intervenção que fosse. Essa lógica soa familiar, não? Ao colocar essas mulheres como vítimas caladas, que nada protestam, reforçamos um processo de silenciamento e recorremos ao white savior complex – já que cabe à figura branca ocidental salvá-las da barbárie da qual nunca se desvencilharam.

Se você chegou até aqui, notou com certeza que esse tom paternalista de encarar uma parcela considerável das mulheres é uma grande furada. Uma balela que não aparece à toa, e que, enquanto cala as vozes de muçulmanas, dá um megafone para ideologias que já conhecemos. Isso porque essa estratégia enfatiza um discurso colonialista até mesmo dentro do feminismo, principalmente se o movimento deixa de lado a interseccionalidade – ou, em outras palavras, se deixa de levar em conta os diversos fatores cabíveis em uma análise sobre mulheres, como etnia, classe social e nacionalidade. É uma narrativa ideológica que reduz todo o contexto à dicotomia do Oriente malvado e antidemocrático que massacra mulheres, e do Ocidente iluminado pela democracia e pautado na igualdade de gêneros. É um discurso que até soa caricato? Ah, é. Mas, convenhamos, ele já justificou muitas ações colonialistas por aí, afinal, quem salvaria essas mulheres senão os países ocidentais? Bullshit.
Esse quadro lamentável é como retratamos as mulheres muçulmanas na mídia, nos filmes hollywoodianos, na fala do dia a dia, e até no discurso feminista. Não faltam feministas que, quando querem rechaçar o machismo e defender que podem, sim, usar a roupa que quiserem, comentam “mas você quer o quê? que eu use uma burca?”. Para que associar a opressão a uma vestimenta que você não conhece e que nunca parou pra pensar em seu significado? Mas o buraco é mais embaixo. Nesse discurso problemático, quem fala sequer tentou ler um pouquinho sobre as reflexões de mulheres muçulmanas sobre o uso desta ou daquela vestimenta (e, bem, aparentemente não existe hijab, nem niqab e nem outras tantas peças, só a famosa burca). Esse discurso vai além: ignora o trabalho das numerosas autoras que falam sobre feminismo islâmico e sobre o feminismo no contexto do Oriente Médio e Norte da África. Esse discurso se esquece (propositalmente) das leituras sobre o Alcorão e do trabalho de tantas feministas que se debruçam sobre o livro sagrado e sobre os hadith. Amina Wadud, Fatima Mernissi, Rifaat Hassan que fiquem quietas no próprio canto, já que seus esforços pouco importam.
Isso se não nos perguntarmos se o imperialismo e o colonialismo não impactaram negativamente o cenário em que essas mulheres vivem. Será que a invasão do Iraque não custou a vida de muitas mulheres e não trouxe mais casos de violência aos quais essas mulheres estão expostas? A resposta mais óbvia (e certeira) é que sim, as coisas pioraram. E nós não nos lembramos disso, nem de que países ocidentais têm culpa no cartório. Ignoramos o contexto histórico por trás de grupos que ganham destaque no noticiário, como o Boko Haram e algumas de suas raízes que têm tudo a ver com o domínio britânico, por exemplo. E nesse meio tempo deixamos de lado a luta das mulheres nesses lugares, seus esforços para uma sociedade mais igualitária (e, aqui, cabe lembrar o artigo da Natalia Nahas sobre a “mulher árabe”).
E é claro que falta bom senso na hora de falar do assunto. Mais confortável seria encarar a mulher muçulmana como parte de uma grande massa uniforme de moças que sequer cogitaram que existe opressão ligada ao gênero. É mais fácil manter o racismo diário e o olhar de piedade para o Oriente. Mais tranquilo para nós, feministas ocidentais, sequer conversar com mulheres muçulmanas (que sejam daqui, de outros países ocidentais, ou do Oriente Médio, para citar alguns dos contextos diferentes em que tais mulheres estão) e entender melhor suas demandas, suas formas de luta. E, bem, está na hora de reverter esse cenário e voltar nossos olhos (e ouvidos) a elas, está na hora de escutá-las com a devida atenção e respeito. Está na hora de parar o discurso colonizador e apoiar as diferentes lutas dentro do feminismo.

 

 

Priscila Bellini tem 19 anos, é feminista e estudante de jornalismo e se arrisca a aprender árabe há algum tempo. Acredita em engajamento jovem e em diálogo. Trabalhou na Baladna Association for Arab Youth, em Haifa, como parte do programa de estágios da FFIPP-Brasil.

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