Uma reflexão tardia sobre Eu matei Sherazade

Texto de Monise Martinez*:
Quando comecei o meu trabalho de investigação sobre a publicação de autobiografias e biografias de mulheres árabes e/ou muçulmanas no mercado editorial português, me deparei com um livro que, apesar de não ter uma edição portuguesa, havia sido publicado em alguns outros países europeus em que edições das obras que eu andava selecionando para análise eram também frequentes. O livro era o Eu matei Sherazade – confissões de uma árabe enfurecida, uma espécie de autobiografia escrita pela jornalista libanesa Joumana Haddad, publicada originalmente em 2010.

Inicialmente, o livro me chamou a atenção por ter sido apresentado ao público com uma proposta que se opunha às narrativas que, habitualmente, fazem com que obras de tipologia e tema similares1 ganhem espaço nas livrarias: as memórias fraturadas de mulheres muçulmanas e/ou provenientes de países árabes sintetizadas em títulos impactantes como Queimada viva, Desfigurada, Divorciada aos 10 anos ou Em carne viva, e afinal, por ter sido escrita sem o auxílio de um/a jornalista ocidental, outra ocorrência habitual e bastante questionável em obras consideradas autobiográficas, afinal, de quem é a voz que se imprime nessas tais narrativas? O que essas publicações todas e o suposto contraponto oferecido por essa nova publicação poderiam significar?
Fiz, então, uma primeira leitura animada e um pouco desconfiada do livro. Sublinhei muitos trechos, refleti sobre muitas das colocações feitas por Joumana a propósito da questão da mulher vista para além de nacionalidades, mas me senti um tanto incomodada com algumas posturas da autora revelada através da sua escolha por termos e pela linguagem que, na época da primeira leitura, pensei que poderiam estar atreladas a uma questão de tradução da obra. Não falo da forma «irreverente» com que Joumana se dirige ao seu leitor ocidental nos peritextos do livro, fato que, aliás, muitos canais de divulgação fizeram imensa questão de enfatizar, como se fosse algo muito chocante e improvável uma mulher e, acima de tudo, uma mulher árabe ter essa tal postura irreverente, falo da forma como o discurso da autora vai se construindo a partir de um paradigma normativo em que, para descontruir os estereótipos relacionados à mulher árabe – como aliás se todas as mulheres árabes fizessem parte de um monobloco único de pessoas iguais – ela tenta primeiramente mostrar ao seu suposto leitor ocidental o quanto essas mulheres se parecem a ele, isto é, adota uma estratégia questionável de desconstrução do estereótipo vinculada ao fato de fazer com que o Outro sereconheça em si, e não vinculada ao fato de fazer com que o Outro reconheça a si.
Em outras palavras, seria alimentar o mesmo paradigma estruturante pautado numa suposta diferença consolidada entre os espaços imaginários do Ocidente e do Oriente em que o Oriente, claro, é tomado inferior.
Para além dessa questão vinculada à forma com que o discurso de Joumana vai se construindo nesses primeiros momentos do livro, há ainda um outro ponto que me chamou a atenção: apesar de dirigir-se explicitamente ao leitor ocidental, a autora deixa claro que, enquanto um processo de autorreflexão, esse livro também se dirige aos seus, já que o seu trabalho consiste também em falar da questão da mulher em si, ou seja, promover uma reflexão sobre gênero independente das representações que as mulheres árabes tenham no Ocidente. Nesse sentido, acha por bem começar falando a respeito do que significa ser árabe na atualidade e, pese o fato desse livro ser uma autobiografia (o que em termos de gênero textual significa dizer que não há exigência de «rigor científico» para a defesa de opiniões), mais uma série de questionamentos relacionados à sua articulação discursiva surgem a partir de suas constatações nesse sentido.
Dentre as muitas coisas mencionadas, para a autora ser árabe na atualidade significa abdicar forçosamente da própria individualidade para seguir um líder (ou significava isso em 2010, quando escreveu o livro).Como diz, significa ser «parte de um rebanho»ou, em outras palavras, encontrar o espaço de uma identidade subjetiva através de uma identidade coletiva baseada em tendências diversas de cunho social, religioso ou político, o que torna os indivíduos incapazes de constituir suas individualidades e contribui, em sua opinião, com a fomentação dos estereótipos em relação aos árabes:
Na prática e de um ponto de vista objetivo, isto [a necessidade de alcançar a própria identidade através da coletividade] conduz à dissolução de todo o talento individual sob o golpe definitivo e homogeneizador da entidade coletiva. Os indivíduos desleídosvêm seus egos arrasados e privados de desempenhar qualquer papel criativo, o que fomenta os clichês predominantes sobre os árabes e sua imagem estereotipada. Quanto mais nos juntamos para fazer ouvir a nossa voz, mas o nosso discurso é mal interpretado (Haddad, 2011) [tradução livre].
Nesse sentido, Joumana expõeum dos muitos discursos estereotipados relacionados aos árabes entendendo-o como reflexo de uma característica que diz ser comum nas sociedades árabes contemporâneas: as tais tendências homogeneizadoras. A partir dessa constatação, que vai de encontro à tentativa de desconstrução dos estereótipos centradas na necessidade de uma espécie de «retratação» do indivíduo estereotipado, Joumana migra à uma reflexão específica sobre o caso dos estereótipos relacionados às mulheres árabes no Ocidente problematizando a questão a partir de duas perspectivas: a do discurso ocidental que, como reitera muitas vezes ao longo do livro,as homogeneíza, e a do discurso das sociedades árabes de onde essas mulheres provêmque, por ser homogeneizador, são opressores e não permitem que elas encontrem um espaço de identificação individual.
Obviamente estar submetida aos preceitos de uma sociedade patriarcal que oprime de formas diversas e através de discursos e instituições diversas a mulher é algo que se deve questionar. Obviamente esse problema não reside somente em sociedades árabes ou muçulmanas e, obviamente, como parece ser objetivo da autora no livro, essa é uma questão sobre a qual independente de fronteiras imaginárias devemos falar. O problema não está, portanto, nesse questionamento que Joumana dirige às sociedades árabes, mas sim em um ponto específico da argumentação que utiliza para promover uma reflexão sobre esse tema e para discutir a questão dos estereótipos associados às mulheres árabes: o possível argumento de que a responsabilidade pela existência desses estereótipos está vinculada, sim, ao modo de funcionar dessas sociedades. Explico.
Na tentativa de tentar compreender e ao mesmo tempo demonstrar como os árabes contribuem com os tais estereótipos ocidentais a que ela tanto critica no livro, Joumana nos dá o exemplo do famigerado uso do véu na Europa pelas mulheres provenientes de países árabes, muçulmanos e pelas próprias ocidentais que integram a comunidade islâmica. A esse respeito,salienta que ele converteu-se em um símbolo de «reação»ao aparente imaginário hostil do Ocidente frente ao Islã após o 11-S e menciona que nessa tentativa de buscar defender e afirmar as suas identidades através do uso do véu, essas mulheres – cujo valor identitário parte de uma construção coletiva – ocultam «a outra mulherárabe que vive no Ocidente, isto é, que não usa véu e que na aparência não se diferencia das demais mulheresocidentais»(Haddad, 2011), ou seja, acaba por insinuar que essas mulheres reforçam a ideia de que só há a possibilidade de existência de uma mulher árabe e que, portanto, fomentam o discurso de intolerância que respalda as imagens falsas e clichês sobre as sociedades das quais provêm (Haddad, 2011).
Para Joumana, então, o estereótipo seriafruto de uma subjetividade construída pela própria identidade do sujeito estereotipado quando esse, ao buscar afirmar-se diante de uma negação da qual o estereótipo é o próprio resultado, acaba por confirmá-lo? – Ao que tudo indica, mesmo que talvez a intenção do seu discurso a esse respeito não tenha sido essa, parece que para a autora a complexa construção da individualidade através de uma identidade coletiva pode justificar, junto das posturas orientalistas do Ocidente, como sublinha, a existência dos estereótipos ocidentais a respeito das mulheresárabes (e dos povos árabes em geral)por não evidenciar paradigmas identitários heterogêneos o suficiente para desconstruí-los o que, afinal, é um problema, já que os estereótipos não são concebidos e menos ainda mantidos apenas por desconhecimento e falta de afirmação, ou seja, não se resolvem ao apresentarmos evidências capazes de desconstruí-los porque, antes de qualquer outra coisa, como menciona Homi Bhabha (1998), os estereótipos são a principal estratégia discursiva de uma prática colonialista.
Não sei quantas vezes reli esse trecho do livro tentando compreender o raciocínio da autora e, sobretudo, suas intenções. Embora Said (2008) afirme que o orientalismo não se define como o resultado de um puro ato de imaginação que consolida verdades jamais verificáveis na realidade, também não se cabe pensar em uma justificativa para os estereótipos pautando-se na ocorrência ou não de fatos capaz de legitimá-los, pois é nítido que eles resultam de uma prática discursiva (no sentido de Foucault) e são frequentemente utilizados como argumentos que justificam os discursos de salvaçãoproferidos muitas vezes com relação as mulheres árabes e/ou muçulmanas. Quando falamos de estereótipos falamos também de discursos de poder, de sobreposição de vozes.
Pensando nessas colocações e no constante mea culpada autora ao longo das primeiras páginas do livro, voltei novamente à questão que me levou a conhecer um pouco tardiamente essa publicação: as outras narrativas que eu andava lendo e às vezes surpreendiam por oferecer perspectivas menos orientalistas do que as suas capas pareciam sugerir, até que ponto a proposta desse livro era mesmo a de contestar esses estereótipos? Até que ponto esse livro teria conseguido enfaticamente promover uma desconstrução mínima deles ao insistir que essa «outra mulher árabe» que Joumana apresenta utilizando-se como exemplo é a mulher que está mais próxima dos paradigmas normatizantes ocidentais, já que se formou, como enfatiza não sei quantas vezes, lendo Marques de Sade e estando imersa em profundas referências ocidentais?
Obviamente as questões que proponho não estão vinculadas a ideia esdrúxula de que ocidentais se formam lendo coisas ocidentais ao passo que orientais se formam lendo coisas orientais e que qualquer imperfeição nesse paradigma pode indicar uma anomalia de caráter e discurso que deve ser contestada e que Joumana seria, então, uma espécie de traidora. As questões que proponho a respeito dessas colocações pontuais da autora referem-se mais ao fato de que, afinal, o modo de descontruir o estereótipo sugerido por ela parece muito mais uma tentativa de apresentar o sujeito estereotipado como «normal» por parecer-se ao Outro do que por ser antes de mais nada um sujeito que merece ter a sua individualidade reconhecida, ou seja, continua a valorizar a perspectiva de que existe uma normalidade.
Teria sido essa normalidade, então, a responsável pela obra ter sido tão bem recebida e aclamada nos mercados do Ocidente? – bem, seria injusto desnobrecer por completo a tentativa da autora com essa publicação e os méritos por ter conseguido, ainda que de forma controversa, propor minimamente alguns questionamentos relacionados às práticas orientalistas que levam a muitos leitores terem tanto interesse pelas autobiografias e biografias de mulheres árabes e/ou muçulmanas, mas fica aqui uma tentativa de verbalizar alguns pensamentos que foram me ocorrendo no meio desse caminho cheio de véus, odaliscas, haréns, camelos e muita confusão.
Referências:
BHABHA, H. A outra questão – estereótipo, a discriminação e o discurso do colonialismo. In: O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.
Haddad, Joumana. Yo maté a Sherazade: confesiones de una mujer árabe furiosa. 1ª ed. Madrid: Debates (Kindle Edition), 2011.
Said, Edward W. Orientalismo. 2aed. Barcelona: DeBolsillo, 2008.
1 Nesse sentido digo similar do ponto de vista editorial, pensando em uma certa tipologia de produção que adequa-se a um determinado segmento de mercado.
 
*Monise Martinez tem 26 anos, é formada em Letras pela Universidade de São Paulo e atualmente faz parte do programa de mestrado em Estudos Editoriais da Universidade de Aveiro, onde realiza um estudo sobre orientalismo e estereótipos em publicações de autobiografias e biografias de mulheres árabes e/ou muçulmanas no mercado editorial português. É confusa, curiosa e trabalha como freelancer para várias editoras brasileiras.

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