Descolonizando ao(s) quadrado(s): a super-heroína de hijabi.

Texto de Júlia Tibiriçá
 
Não faltam referências ou piadas hollywoodianas para demonstrar o quanto (e não é pouco) a grande indústria das Histórias em Quadrinhos de Super-Heróis reproduz, desde sempre, preconceitos e desigualdades, pautadas não por acaso, pelas maneiras-de-agir-e-pensar consolidadas pelo Ocidente excessivamente ocidental dos norte-americanos. Há mais de setenta anos, o primeiro de muitos Super-Homens inaugura a era de ouro dos quadrinhos e das personagens que compreenderam o espírito de seu tempo, em particular no que se refere à propaganda neoliberal, às entrelinhas orientalistas e ao esforço ímpar de garantir que as mulheres – até quando fossem “super” – estivessem em seus históricos e devidos lugares.

 
Eram, como ainda são, histórias produzidas por homens brancos, para homens brancos, sobre super homens brancos. A participação das personagens femininas na grande maioria dos comics até hoje é representada ora pela vítima, secretária ou namorada histérica, ora pela hiper-sexualizada, mal-resolvida heroína, cujos superpoderes são insuficientes, frequentemente exigindo alguma presença masculina para que o dia tenha um final feliz. Como se não fosse suficiente subrepresentar-nos como acessório, mais frequentemente do que não, personagens femininas são brutalmente aleijadas, feridas, estupradas ou mortas como recurso de roteiro em benefício dos protagonistas masculinos. (ver mais em: http://lby3.com/wir/women.html).
 
Por mais de setenta anos, portanto, eles têm nos desenhado como quiseram e feito conosco o que bem entenderam, inclusive nos colocando mortas dentro da geladeira quando não nos quiseram mais. E nós, mulheres ocidentais, demoramos muito mais do que devíamos comprando e lendo décadas de super heróis canalhas, achando que talvez, no fundo, a Mulher-Gato, a Capitã Marvel ou a Viúva Negra acabariam nos representando de fato. Apesar disso, não deixa de ser louvável o esforço de mulheres quadrinistas que nos arredores e sarjetas de uma indústria milionária produzem, aos poucos, suas contribuições combativas que lutam pelo direito de representar-nos a nós mesmas. Por alguma razão desconhecida talvez o universo dos super poderes tenha sido ainda pouco explorado – não por acaso, o mesmo universo que está entre os mais queridos dos públicos leitores tradicionais e mais lucrativos para as grandes editoras.
 
Tudo isso para dizer, finalmente, que lado a lado as iniciativas de roteiristas como Gail Simone, de Aves de Rapina, e da brasileira Adriana Melo – a primeira mulher a desenhar o Justiceiro e o Homem-Aranha – surge em 2011, como resposta a tamanha injustiça (a respeito da qual nós, do lado de cá de Greenwich, ainda muito temos o que fazer), a brilhante contribuição da quadrinista egípcia Deena Mohamad: a super-heroína de hijabi, Qahera.
 
Pode ser que ela não tenha um contrato com uma editora que imprima tiragens megalomaníacas e traduzidas em dezenas de línguas. Ela pode não contar tampouco com o trabalho de artistas especialistas e com tecnologia de última geração. Mas nada interfere na mensagem – clara, forte e empoderada – de Qahera, contra os abusos e a violência da misoginia de sua própria sociedade e, ao mesmo tempo, contra a tutela ignorante de algumas das “irmãs” feministas ocidentais. 
 
 
Abertas e gratuitas, disponíveis em inglês e árabe no blog da cartunista, cada uma das partes dos quadrinhos de Qahera trata brevemente de um assunto, desde a crítica da autora às “ativistas” do femen internacional, a culpabilização cotidiana das vítimas de assédio sexual, à percepção da inserção das mulheres nos movimentos sociais, etc. Diferentemente da tendência comum dos super-heróis americanos, que marcam suas diferenças em relação ao Homem comum para enaltecer aquilo que lhes faz supremos, Qahera é humana e falível, as vezes não chega a tempo e as vezes não precisa chegar. Deena dedica a personagem e seu trabalho às super heroínas da vida real, à todas que precisam saber que com ou sem hijabi são super-poderosas como a protagonista das tiras. A autora critica, também, o fato de que se faz com frequência uso de diversas estatísticas de violência contra a mulher para descreditar movimentos políticos e sociais egípcios, ao passo que essas estatísticas seriam aplicáveis ao âmbito local e internacional, em diversos contextos, e que aqueles que lançam mão das estatísticas em prol de um discurso político ou outro, não estariam de fato preocupados com as mulheres reais que sofriam com os abusos registrados.
 
 
Quando perguntada sobre o que Qahera ser uma super heroína quer dizer, Deena afirma que significa não precisar ter medo. Significa poder encarar todos os desafios vividos pelas mulheres muçulmanas, e ter sua voz ouvida. Mais do que isso, talvez, a cartunista também sugere que o fato de Qahera ser uma super heroína permite uma certa liberdade, no sentido de não mais apenas constantemente argumentar com palavras como “privilégio”, “patriarcado” e “feminismo interseccional”, mas também, de fato, partir para cima (literalmente) de seus inimigos com termos simples e uma katana nas mãos, letal em seus traços despretensiosos de um preto-e-branco colorido pelo vermelho da revolução. Qahera não poupa ninguém: seu inimigo não é um vilão fictício nem fantasiado, muito menos invencível – e é absolutamente inaceitável, seja nas ruas, nas instituições, na arte ou na cultura.
 
Para os desavisados que se surpreendem com a origem das críticas ásperas de Qahera, nota-se que os movimentos feministas egípcios estão entre os mais antigos do Oriente Médio e que as feministas egípcias participaram ativamente do movimento pela independência em 1919. 1919! Isto é, vinte anos antes do Segundo Sexo de Simone de Beauvoir, e quase 45 anos antes da Mística Feminina de Betty Friedan. Não parece incoerente supor que quando as francesas ou americanas abertamente começam a debater questões de gênero, as mulheres que carregam aquilo que seria o grande símbolo internacional de silenciamento para muitos mal informados – o hijabi – já viviam a luta por autodeterminação de si mesmas e de seus territórios há décadas.
 
De dentro de seus ainda poucos quadradinhos, Qahera é a voz dissidente contra a misoginia de sua sociedade, contra a misoginia representada pelo main-stream das narrativas quadrinizadas ocidentais, contra a perspectiva tosca e reacionária do Oriente da mulher mais oprimida, da mulher mais vulnerável e contra a equivocada ideia de que elas tem mais a aprender conosco, do que nós com elas. Qahera tem muito a nos ensinar e teve mais coragem para ser uma personagem complexa na tentativa de dar voz à sua identidade do que a recente (mas não tão recente) Capitã Marvel paquistanesa de 2013. Assim, a complexidade humilde da protagonista e de sua cartunista sobre a qual ainda pouco se sabe, abre timidamente vias para caminharem as lutas dessas identidades complexas e historicamente estigmatizadas – por serem mulheres, por serem árabes, por serem críticas -, tendo no horizonte a certeza de que, se restar ao Super Homem o triste destino de cruzar esses caminhos, não há de sobrar muito para continuar, sem elas, fazendo História.
 
 
 
 
*Júlia Tibiriçá, 22, insiste em estudar Relações Internacionais e Ciências Sociais, sem saber muito o por quê, já que gosta de cachorros, de zumbis e do Batman. É militante feminista e esteve duas vezes nos Territórios Ocupados da Palestina, onde trabalhou como coordenadora do programa Educacional Network for Human Rights in Palestine/Israel.
 
Leia todas as edições de Qahera no site da autora

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