Oslo III

Desato o tabaco do saco de couro e enrolo um cigarro.

Desenrolo labirintos
salamaleikis e bordados
esparramados em tapetes
nas paredes
nos ouvidos
e no chão.

Arabescos de fumaça e brasa nos narguilés
valsa de derbaki e alaúde na quietude do deserto contido no sorriso
palestino
silencia na saudade da cidade que desconhece.

Enquanto isso, uma nova colonia se anuncia no horizonte

E os homens de terno
E os jornais
E os rolos de arame farpado
E os papéis oficiais
E os rolos compressores
E as rodas dentadas dos tanques de guerra comendo o chão de pedra
E os meninos perdidos em pedras e rezas e valas na terra
E a terra perdida em guerras e arames e jornais e ternos e papéis carimbados, protocolados e assinados pelas grandes nações civilizadas
Enroscam
E rasgam
E calam

E assim, fumamos,
esperamos
e a esperança esfumaça
em fogueiras de vaidades
e acordos de paz

Uma visita desagradavel

Não eram ainda onze horas de uma manhã de sol no Vale do Jordão. Estava trabalhando com amigos brasileiros e palestinos, consertando o telhado de uma casa no vilarejo de Al-Fasayal, quando o jipe chegou. Eram quatro soldados, todos muito jovens, com exceção de um oficial arrogante de olhos azuis, aparentando estar na casa dos trinta. A postura agressiva e desrespeitosa denotava já alguns anos no cumprimento patriótico da ocupação militar ilegal.

Entraram na casa sem perguntar. A primeira frase que ouvi foi “hey, you, no pictures!” quando viram que eu tinha uma câmera. Olharam a casa, fizeram algumas perguntas’ tiraram fotos e foram embora depois de quinze minutos.

Quando saíram, guardei minha câmera no quarto e escondi o cartão de memoria embaixo de uma ripa de madeira, desconfiando de que a visita tinha sido muito curta.

Palpite confirmado, retornaram após quinze minutos, agora com nove soldados. Mandaram o trabalho parar e ordenaram que nos reunissemos Um dos soldados quis ver minha câmera e me acompanhou ate o quarto, junto com dois outros militares. Mostrei o equipamento e disse que, na pressa, havia deixado o cartão de memoria no meu hostel, em Bethlehem. Disse que era apenas um turista cristão que havia chegado na noite anterior, na esperança de fazer hiking nas montanhas de Jericho.

Os soldados falavam um inglês péssimo (o sistema de ensino israelense se preocupa menos em formar leitores do que lutadores), mas entre os novos cinco militares havia um interprete de português. Era um rapaz argentino, muito jovem e magro, filho de uma judia brasileira, que havia morado algum tempo no Rio de Janeiro antes vir pra Israel se voluntariar para invadir casas de gente inocente no meio do deserto.

Eles revistaram mochilas, armários e gavetas, olharam embaixo das camas e dos colchões. Juntaram todas as bandeiras palestinas que encontraram e amontoaram num canto, junto com cartazes e banners, como se fossem bombas e fuzis. Apontaram com nojo pra os adesivos colados nas paredes e praguejaram em hebraico.

O argentino franzino tentou desesperadamente me alertar para o perigo que eu corria estando lá. Ele me disse “você é maluco de ficar com palestinos, esses caras são muçulmanos radicais, todos fanáticos”, e ficou inconformado quando eu lhe contei que ja tinha tomado cerveja com um deles, e que minha amiga estava lá em cima, trabalhando junto com os homens, vestindo camiseta de manga curta e usando os cabelos soltos.

    – Olha ao seu redor, isso aqui é tudo miséria! Ali, olha ali, tem um burrinho solto, e tem um monte de galinhas andando por ai! Você veio do Brasil, sabe o que é miséria, sabe o que é favela, por que você vem aqui pra essa miséria? Olha pra as casas dessa gente, sente o cheiro, tudo miserável, sujo!

 Ao que eu respondi:

   – Amigo, olha ao seu redor, olha pra essas montanhas, ouve esses pássaros, sente esse vento, olha essa simplicidade. Onde você vê miséria, eu só consigo ver beleza.

Eles juntaram nossos passaportes, fotografaram os documentos e nossos rostos. Disseram que poderíamos ser presos se trabalhassemos com palestinos, “atacando judeus e queimando bandeiras”.

Havia um grande banner na parede, mostrando a foto de um soldado em cima de um tanque de água, apontando o fuzil para mulheres e crianças. O soldado me perguntou por que eu tinha aquela foto se eu não estava contra israel. Eu disse que o banner não era meu. Ele perguntou por que estava na parede se não era meu, ao que eu respondi que a parede também não era minha. Então ele me perguntou por que eu não arrancava a foto da parede se ela não era minha. Eu disse, um tanto contrariado, que no meu pais nós não temos o habito de arancar os fotos que não nos pertencem de paredes que não nos pertencem em casas de gente que nos hospeda de graça.

Os soldados encontraram a câmera de um dos palestinos, mas ela estava sem cartão de memoria.Eles disseram que, se não era nossa, então eles estavam confiscando o equipamento para verificar na base. Perguntamos educadamente se eles poderiam deixar um recibo dizendo que levaram a câmera, para que pudéssemos apresentar para o dono quando ele retornasse e depois recuperar o bem que lhe foi tomado. Eles discutiram um pouco em hebraico e decidiram generosamente não roubar a câmera aquele dia.

Tudo durou pouco menos de uma hora, ao fim da qual eles entraram nos seus jipes blindados, ligaram os motores e esperaram por mais dez minutos. Rondaram a casa e foram embora, levando embora a democracia israelense e nos permitindo curtir a nossa miséria em paz.

                                         *foto do companheiro Nicolas Neves dos Santos