Sobre amor e Apartheid

Hoje, 14 de fevereiro, é comemorado mundialmente o Dia de São Valentim, uma data de celebração do amor, cheio de balões bregas, ursinhos, chocolates e propagandas machistas. Em Israel celebra-se o amor e a união tanto pela data comercial do dia 14 quanto pelo dia 15, a festa de Tu B’Av. Muitos cartazes cor-de-rosa, flores, jóias e amor – se você for judeu, é claro.

O amor para os palestinos com cidadania israelense não tem grande razão de celebração, por causa de uma das tantas leis racistas que fazem que deste pedaço de terra sagrada a antítese absoluta da democracia.

Clamam os sionistas ao redor do mundo que a Democracia Israelense garante igualdade aos árabes abraçados pela nação judaica. Um dos direitos fundamentais que a cidadania garante à todos os indivíduos ao redor do mundo é o de se casar e criar sua família no seu país. Pois bem, palestinos nascidos dentro de Israel são cidadãos (à despeito de não terem nacionalidade, que em Israel é Judaica, e não Israelense, mas isso é assunto pra outra postagem), mas o direito de amar e criar uma família não lhes é garantido.

Em 2003, durante a Segunda Intifada, o Knesset aprovou uma lei que proibia a união de palestinos-israelenses com palestinos dos territórios ocupados. Isso significou a separação de milhares de famílias, com a expulsão de palestinos nascidos do outro lado do muro. Em 2005, após criticas severas, a lei foi amenizada, com o direito de que homens acima de 35 anos e mulheres acima dos 25 pudessem fazer uma petição para a Unificação Familiar. Entre 2001 e 2010, apenas 54 das mais de 130.000 petições foram aprovadas. Atenção para a democracia garantida pela Suprema Corte para os palestinos com “cidadania” israelense: cinquenta e quatro de mais de cento e trinta mil. O quadro melhorou consideravelmente, quando, em 2012, foram aceitas 33 das mais de 30.000 petições renovadas durante o ano. Bacana, não?

Palestinos nascidos em Israel são, teoricamente, israelenses, portanto é ilegal que morem nos territórios ocupados. Se mudar para o outro lado do muro não é uma opção. Isso significa que palestinos não tem, também, permissão para criar seus filhos, pois a estes também não é concedida a cidadania israelense. Se uma petição para a cidadania de uma criança for aceita, então ela terá que viver longe de um dos pais de qualquer modo.

Em 2007, ao invés de retroceder, a lei foi ampliada. Dali em diante, também tornou-se crime o amor entre israelenses e libaneses, sírios, iranianos e iraquianos.

Consideremos, agora, o caso de uma mulher nascida em Bethlehem que consiga atravessar os anos e altos custos de burocracia israelense e obtenha o direito de viver com seu marido nascido em Jerusalém, à menos de dez quilômetros de distância. Neste caso, ela ainda não terá direito à serviços garantidos pelo Estado (e pelos quais ela paga altíssimos impostos), como seguro-saúde ou ter carta de motorista, e terá que renovar a permissão anualmente, que pode ser revogada pelo governo a qualquer momento e por qualquer razão.

A lei foi considerada racista pela ONU, mas Israel não se abalou.

Agora, consideremos, porventura, que um palestino-israelense e uma israelense judia queiram se casar. Nesse caso, aí sim, é também… inviável.

Em Israel não existe casamento civil. Para formalizar uma união, é necessária a benção de uma autoridade religiosa reconhecida pelo Estado. No caso, judeus precisam do aval do rabinato ortodoxo. Portanto, o nosso palestino apaixonado precisaria se converter ao judaísmo (e não é necessária muita imaginação para visualizar o que isso significa quando tratamos de um povo que luta diariamente pela manutenção de sua herança cultural e afirmação de identidade), estando submetido à mercê da boa vontade de sinagogas sionistas abraçarem seus irmãos árabes.

A lei foi estabelecida sob o pretexto de garantir a segurança do estado durante os ataques suicidas da segunda Intifada, que apavoraram (com razão) a sociedade israelense. Entretanto, a manutenção de tal segregacionismo mais de uma década após o levante mostra a real natureza do sistema: a manutenção da maioria demográfica judaica.

O amor não tem valor em tempos de Apartheid.

Feliz dia dos namorados!

Para mais informações sobre como o sionismo criminaliza o amor, visite http://www.loveunderapartheid.com/

Qual a sua opinião?