O escorpião das horas

Em arabe, os ponteiros do relógio chamam-se “aqrab al-saat”, o escorpião das horas. A contagem do tempo como a ferroada que se aproxima, veneno que arde e mata por dentro, correndo corrente sanguínea escorrendo sub-repticianamente na areia do deserto de uma ampulheta.

Talvez essa seja a razão de a relação com o tempo ser tao diferente aqui. Os minutos não estão à venda, não tem post-its amarelos pendendo pelas bordas.

Os escritórios fecham às quatro horas da tarde, como que sabendo não valerem a pena os papéis carimbados diante do pivilegio de chegar em casa a tempo de dar um beijo nas crianças, ou de fumar narguile, jogar baralho e assistir um jogo do Barcelona com os amigos em um café qualquer.

Se tomo um taxi, o motorista toma o caminho mais longo, para pra cumprimentar um amigo, volta com café e biscoitos pra me oferecer. De graça, sempre.

Se dou bom dia para o vizinho de baixo, ele me puxa pelo braço pra tomar chá, mostrar as fotos de familia, falar de literatura, do tempo frio, do jornal de ontem, dos tempos que se foram e já não voltam mais. Quando o vicio da pressa me toca cedo de casa, preciso me esgueirar pra nao ser sequestrado pela gentileza alheia.

A urgência do capitalismo predatório não colonizou as mentes que germinam em terras colonizadas. Comprar souvenirs na cidade velha implica sentar, barganhar, contar piadas. Historias valem mais do que dinheiro, e quanto melhor a sua historia, menor o preço da bugiganga. Pechincha-se prosa.

Cinco vezes por dia, o canto que ecoa os templos canta o tempo de esquecer caixas registradoras, carteiras de identidade, muros e mortes. Mãos largam pedras e teclados e arados. Homens ajoelhados sobre tapetes, casacos, concreto, curvam cabeças na mesma direção e, em silêncio, são um.

Sempre ha tempo pra mais um café, olá como vai, e o brasil, e aquela gripe, leve uns limões, colhi ontem, são deliciosos, ahlam wa sahlam, leve um casaco que vai esfriar, ahlam wa sahlam pra você também.

De paciência se destila o soro que atrasa o relógio.

4 comentários sobre “O escorpião das horas

  1. O tempo sempre desaparecia. No suk, sempre desaparecia enquanto eu ficava o dobro do tempo andando porque não lembrava como falava "cebola" e "berinjela"; e o tempo sumia enquanto os pregões dos mercadores, professores, me ensinavam a contar. Na rua, o tempo desaparecia nos sorrisos e passos que me acompanharam despretensiosamente quando eu parecia perdida, desaparecia nas comidas coloridas e enquanto as mãos rodopiavam o pão folha na forma na calçada O tempo sumia nos almoços surpresa no trabalho e dos aniversários enquanto as mulheres dançavam uma liberdade inédita pra mim, sumia nas horas de chá. Sumia todo o tempo quando eu parava em cada placa de rua de Ramallah pra lê-la, sua história de heróis imortalizados em avenidas, como em qualquer outra metrópole, quebrando meus muros.

    O tempo acelerava. Acelerou quando eu percorri boa parte do pais em uma semana, quando estive no deserto e nas colinas e em dois meses acabou. Acelerou quando me vi usada e humilhada para atrasar a vida de pessoas que iam trabalhar, num check point e enquanto eu via me via em frente embaixo do muro gigantesco. Acelerou no olhar ressecado e vivo da mulher fazendo pão no vale do Jordão e na certeza de só poder olhar a sede dela e tentar entender, porque ela não era minha e era minha a sede de saber.

    O texto dialoga com uma experiência única, vencer a rigidez do tempo num lugar onde o tempo já passou demais. O tempo caminha e corre ao mesmo tempo na Palestina. Como no escorpião, o tempo é veneno e remédio; corre tudo ocupa tudo rápido e escapa ou flui fácil na cultura conservada milenar que fica.

    Belíssimo.

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