O escorpião das horas

Em arabe, os ponteiros do relógio chamam-se “aqrab al-saat”, o escorpião das horas. A contagem do tempo como a ferroada que se aproxima, veneno que arde e mata por dentro, correndo corrente sanguínea escorrendo sub-repticianamente na areia do deserto de uma ampulheta.

Talvez essa seja a razão de a relação com o tempo ser tao diferente aqui. Os minutos não estão à venda, não tem post-its amarelos pendendo pelas bordas.

Os escritórios fecham às quatro horas da tarde, como que sabendo não valerem a pena os papéis carimbados diante do pivilegio de chegar em casa a tempo de dar um beijo nas crianças, ou de fumar narguile, jogar baralho e assistir um jogo do Barcelona com os amigos em um café qualquer.

Se tomo um taxi, o motorista toma o caminho mais longo, para pra cumprimentar um amigo, volta com café e biscoitos pra me oferecer. De graça, sempre.

Se dou bom dia para o vizinho de baixo, ele me puxa pelo braço pra tomar chá, mostrar as fotos de familia, falar de literatura, do tempo frio, do jornal de ontem, dos tempos que se foram e já não voltam mais. Quando o vicio da pressa me toca cedo de casa, preciso me esgueirar pra nao ser sequestrado pela gentileza alheia.

A urgência do capitalismo predatório não colonizou as mentes que germinam em terras colonizadas. Comprar souvenirs na cidade velha implica sentar, barganhar, contar piadas. Historias valem mais do que dinheiro, e quanto melhor a sua historia, menor o preço da bugiganga. Pechincha-se prosa.

Cinco vezes por dia, o canto que ecoa os templos canta o tempo de esquecer caixas registradoras, carteiras de identidade, muros e mortes. Mãos largam pedras e teclados e arados. Homens ajoelhados sobre tapetes, casacos, concreto, curvam cabeças na mesma direção e, em silêncio, são um.

Sempre ha tempo pra mais um café, olá como vai, e o brasil, e aquela gripe, leve uns limões, colhi ontem, são deliciosos, ahlam wa sahlam, leve um casaco que vai esfriar, ahlam wa sahlam pra você também.

De paciência se destila o soro que atrasa o relógio.

Sobre amor e Apartheid

Hoje, 14 de fevereiro, é comemorado mundialmente o Dia de São Valentim, uma data de celebração do amor, cheio de balões bregas, ursinhos, chocolates e propagandas machistas. Em Israel celebra-se o amor e a união tanto pela data comercial do dia 14 quanto pelo dia 15, a festa de Tu B’Av. Muitos cartazes cor-de-rosa, flores, jóias e amor – se você for judeu, é claro.

O amor para os palestinos com cidadania israelense não tem grande razão de celebração, por causa de uma das tantas leis racistas que fazem que deste pedaço de terra sagrada a antítese absoluta da democracia.

Clamam os sionistas ao redor do mundo que a Democracia Israelense garante igualdade aos árabes abraçados pela nação judaica. Um dos direitos fundamentais que a cidadania garante à todos os indivíduos ao redor do mundo é o de se casar e criar sua família no seu país. Pois bem, palestinos nascidos dentro de Israel são cidadãos (à despeito de não terem nacionalidade, que em Israel é Judaica, e não Israelense, mas isso é assunto pra outra postagem), mas o direito de amar e criar uma família não lhes é garantido.

Em 2003, durante a Segunda Intifada, o Knesset aprovou uma lei que proibia a união de palestinos-israelenses com palestinos dos territórios ocupados. Isso significou a separação de milhares de famílias, com a expulsão de palestinos nascidos do outro lado do muro. Em 2005, após criticas severas, a lei foi amenizada, com o direito de que homens acima de 35 anos e mulheres acima dos 25 pudessem fazer uma petição para a Unificação Familiar. Entre 2001 e 2010, apenas 54 das mais de 130.000 petições foram aprovadas. Atenção para a democracia garantida pela Suprema Corte para os palestinos com “cidadania” israelense: cinquenta e quatro de mais de cento e trinta mil. O quadro melhorou consideravelmente, quando, em 2012, foram aceitas 33 das mais de 30.000 petições renovadas durante o ano. Bacana, não?

Palestinos nascidos em Israel são, teoricamente, israelenses, portanto é ilegal que morem nos territórios ocupados. Se mudar para o outro lado do muro não é uma opção. Isso significa que palestinos não tem, também, permissão para criar seus filhos, pois a estes também não é concedida a cidadania israelense. Se uma petição para a cidadania de uma criança for aceita, então ela terá que viver longe de um dos pais de qualquer modo.

Em 2007, ao invés de retroceder, a lei foi ampliada. Dali em diante, também tornou-se crime o amor entre israelenses e libaneses, sírios, iranianos e iraquianos.

Consideremos, agora, o caso de uma mulher nascida em Bethlehem que consiga atravessar os anos e altos custos de burocracia israelense e obtenha o direito de viver com seu marido nascido em Jerusalém, à menos de dez quilômetros de distância. Neste caso, ela ainda não terá direito à serviços garantidos pelo Estado (e pelos quais ela paga altíssimos impostos), como seguro-saúde ou ter carta de motorista, e terá que renovar a permissão anualmente, que pode ser revogada pelo governo a qualquer momento e por qualquer razão.

A lei foi considerada racista pela ONU, mas Israel não se abalou.

Agora, consideremos, porventura, que um palestino-israelense e uma israelense judia queiram se casar. Nesse caso, aí sim, é também… inviável.

Em Israel não existe casamento civil. Para formalizar uma união, é necessária a benção de uma autoridade religiosa reconhecida pelo Estado. No caso, judeus precisam do aval do rabinato ortodoxo. Portanto, o nosso palestino apaixonado precisaria se converter ao judaísmo (e não é necessária muita imaginação para visualizar o que isso significa quando tratamos de um povo que luta diariamente pela manutenção de sua herança cultural e afirmação de identidade), estando submetido à mercê da boa vontade de sinagogas sionistas abraçarem seus irmãos árabes.

A lei foi estabelecida sob o pretexto de garantir a segurança do estado durante os ataques suicidas da segunda Intifada, que apavoraram (com razão) a sociedade israelense. Entretanto, a manutenção de tal segregacionismo mais de uma década após o levante mostra a real natureza do sistema: a manutenção da maioria demográfica judaica.

O amor não tem valor em tempos de Apartheid.

Feliz dia dos namorados!

Para mais informações sobre como o sionismo criminaliza o amor, visite http://www.loveunderapartheid.com/

Frio

Cadernos Palestinos – 06/02/2014
Quando palestinos tem suas casas demolidas pelas Forças de Ocupação Israelense,
a Cruz Vermelha, Crescente Vermelho e UNWRA lhes dão tendas.
Foto: Plínio Zúnica  

Noite passada acordei às 4h da manhã. Meus pés estavam gelados, apesar dos três cobertores sobre mim. Levantei pra pegar um par de meias e consultei a temperatura no meu celular: 5° em Bethlehem.
Antes de voltar a deitar, olhando pela janela embaçada, lembrei que, naquela mesma hora, centenas de palestinos se espremiam em gaiolas no checkpoint 300, a poucos quilômetros da minha cama. Me lembrei de quando cheguei a Palestina, em dezembro, duas semanas após a nevasca. As ruas estavam cobertas de gelo, e eu esquentava água no fogão pra escovar os dentes.
Essa semana, mais uma notícia de totura por parte das forças de ocupação israelense chegava aos jornais locais. O Public Committee Against Torture in Israel relatava que, na unidade prisional de Ramla, duzias de prisioneiros – incluindo crianças – eram jogados no meio da noite em gaiolas de ferro, nas quais passavam horas expostos à chuva, vento e neve, até às seis da manhã, quando eram levados diretamente para o seu julgamento, em uma corte militar, onde os vereditos possíveis eram: prisão “administrativa”; passar mais tempo onde estavam sendo interrogados; ou a libertação mediante fiança e multas.
Agora é fevereiro, e o tempo esta muito melhor. Já não há uma camada de gelo sobre as calçadas, e escovo os dentes com a água que sai direto da torneira. A pior parte do inverno já passou, e esta noite dormi apenas com uma calça de moletom, uma blusa térmica, um gorro de lã, três cobertores e, ainda assim, acordei no meio da madrugada pra colocar meias. Meus dedos doem de frio enquanto digito. Entre uma frase e outra, aqueço minhas mãos entrelaçadas numa caneca de chá.
Penso em como as casas palestinas são mais frias do lado de dentro que do lado de fora. É uma arquitetura inteligente pra combater o calor infernal do verão, mas como só estive aqui em invernos, amaldiçoei muitas vezes essa idéia. Então penso nos milhares de palestinos que tem suas casas demolidas pelo exército e vão morar em tendas. Não imagino quantos cobertores são necessários para sobreviver numa tenda durante uma nevasca.
Essa manhã, quando me levantei pra escrever esse post, li que a Cruz Vermelha anunciou que não entregará mais tendas para os palestinos desabrigados. Eles alegam que, infelizmente, não há propósito em entregar abrigos aos palestinos, uma vez que o exercito destrói as tendas um ou dois dias após a entrega. Os militares dizem que destróem tendas de pano pelo mesmo motivo que demolem casas: elas são montadas ilegalmente, sem permissão do governo, sem documentos e carimbos que concedam o direito de uma família dormir coberta por uma lona fina em meio ao pior inverno do século, quando a neve acumulada atingiu quarenta centrimetros de altura nas ruas de Hebron. Então me lembrei das familias que se abrigam em cavernas nas montanhas, após suas casas serem demolidas, após suas barracas de lona serem rasgadas e terem as ferragens retorcidas por soldados vestindo uniformes térmicos. E então me lembrei das cavernas que vi no vale do Jordão, com suas entradas fechadas com arame farpado e placas. É, também, ilegal morar em cavernas sem a concessão  de burocratas israelenses. Ainda é permitido morrer congelado, mas é incerto o direito de ser enterrado na sua terra.
Não consigo imaginar o que seja passar a madrugada sob chuva e neve em uma gaiola de ferro no ápice do inverno, após tantas sessões de interrogatório e tortura quanto o tempo tiver permitido. Não consigo imaginar o que seja viver em barracas de lona no deserto. Não consigo imaginar o que seja viver em cavernas quando, alguns quilômetros além, casas de colonos tem tapetes macios e grandes lareiras coloniais.
Então penso que, na minha cidade, os expropriados morrem de frio em bancos de praça, e a Cruz Vermelha nunca cogitou lhes entregar tendas de lona e kits de sobrevivência.

Então tremo, mas não de frio.

Quando as tendas são destruídas pelo Exército Sionista, os palestinos buscam abrigo em cavernas.
Então, em nome da “segurança do estado”, as Forças de Ocupação lacram as cavernas.
Foto: Plínio Zúnica