Feliz ano velho

Primeiro dia do ano novo. Voltando pra casa no ultimo ônibus, desci no checkpoint entre Jerusalem e Bethlehem. Uma familia palestina desceu e atravessou a barreira logo à minha frente. Pai, mãe e dois filhos, que não teriam mais do que cinco e sete anos. O mais velho corria, espivetado, e o mais novo não acompanhava o ritmo. Atravessaram a primeira barreira, entraram no patio intermediário e se viram no enorme espaço aberto normalmente abarrotado. O filho mais velho, que se chamava Nicolas, de acordo com os gritos da mãe, não sossegava. Então o pai correu, colocou o mais novo nos ombros e disparou à galope, brincando com os dois pequenos naquela imensidão murada, sob a vigília das torres e dos soldados entediados com seus rifles e jogos de celular.

Por um instante me esqueci das grades e fardas ao nosso redor. Ali, ao meu lado, eu via uma familia comum, um parque, um fim de tarde num começo de ano simples e tranquilo. 

Talvez o pai esteja calejado o suficiente pra esquecer e se permitir ser alegre ali, ou talvez seja um ato benevolente de quem quer prolongar a inocência de duas crianças que nasceram sem o direito de ser inocentes. 

Sorri, mas depois não sabia se havia espaço pra sorrir. Talvez aquele pai tenha a mesma duvida que eu.

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