Último dia

02 de março

Ontem me despedi de Jerusalém. No dia anterios, me despedi de Beith Sahur.
Acordei essa manhã em Tel Aviv, e dentro de alguns minutos estarei passando pelos detectores de humanidade do aeroporto. Esperar agora que um sorriso hipócrita e um background inventado, cheio de jesus e shalom, faça com que me considerem inofensivo.
Enviei meus livros pelo correio, apaguei minhas fotos e meus textos. Quanto menos você sabe, mais eles gostam de você. Nenhum soldado realmente busca bombas.
Ontem uma amiga ficou nua em uma sala de interrogatório só por ter um nome árabe. Outra foi interrogada por carregar o cartão de uma livraria que vende material político. Alguns dos colegas tomaram taxis, mas o chofer tinha a cor da pele errada, o sotaque errado, então os soldados mandaram o carro encostar antes de chegar ao aeroporto, e o interrogatório e a vistoria de bagagem aconteceram ali mesmo, no acostamento.
Em algumas horas um agente de segurança me perguntará quem eu conheci, aonde fui, o que vi. Preciso bloquerar meu facebook, apagar meus e-mails, limpar meu computador. Se eu interpretar meu papel corretamente o soldado vai me deixar voltar. Ele vai carimbar meu passaporte com uma nota de acordo com meu grau de periculosidade. Se eu parecer suficientemente alienado, Israel será gentil comigo.
Dentro de pouco tempo estarei no Brasil. Vou matar a saudade do meu amor, dos meus amigos, da minha casa e de feijão. Vou sentar no meu quarto confortável, organizar a pilha de textos que não publiquei nesse blog nas ultimas semanas, relaxar em segurança com a certeza de que nenhum soldado arrombará minha porta de madrugada. Ninguém vai demolir a minha casa. Ninguém vai apagar minha história. Ninguém vai espancar minha família ou me prender por me recusar a ser tratado como lixo. Vou escrever sobre o que vi no conforto da minha casa, enquanto cultivo a saudade dos amigos que ficam aqui, presos em uma jaula com estes animais de farda e rifle.
Acho que meu feijão será um pouco mais amargo daqui pra frente.

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05 de março

No aeroporto um agente de segurança pegou meu passaporte ainda na fila do check-in e me pediu para esperar ao lado. saiu, voltou e perguntou o propósito da minha visita. Eu disse que estava ali por uma questão religiosa, que era cristão e tinha ido fortalecer meus laços com nosso senhor jesus cristo. Me perguntou se eu estava lá com israelenses. Eu disse que havia acabado de chegar da casa de uma família de Tel-Aviv, tios de uma amiga brasileira. Me peruntou os nomes deles e onde moravam, e eu respondi. Dez minutos depois, outro agente de segurança voltou, fez mais perguntas sobre o propósito da minha viagem e pediu que eu repetisse os nomes dos israelenses que eu conhecia. Dez minuotos depois, a mesma coisa com outro agente.

Minhas malas passaram primeiro pelo raio-x, depois foram minuciosamente revistadas. Ligaram minha câmera e viram as fotos que eu havia deixado nelas. Passam um tecido em todas as minhas coisas e colocam amostras em uma máquina, à procura de vestígios de explosivo. pergunto do que se trata  aquilo. “SÉ sigiloso, questão de segurança”. Em seguida abrem meu computador, passam o pano á la C.S.I., chamam o supervisor.”Senhor, vamos levar seu computador para verificação”. Claro, pode levar, que escolha eu tenho?

Fui para uma sala separada, parecida com um provador de roupas apertado. Fiquei de cueca, fui revistado e passei pelo detector de metais. Queriam saber onde eu fui, o que fiz, o que achei do país. Alguns agentes eram simpáticos, sorriam e me perguntavam sobre o carnaval carioca enquanto caçavam indícios de que eu fosse um terrorista perigoso. Outros eram mais agressivos. “Senhor, sua câmera, seu celular, seu computador e todos os dispositivos eletrônicos que estiverem em sua posse terão que ser despachados”. Ok, posso perguntar o motivo? “Sigiloso, não posso te dizer”. 

No fim de tudo, uma agente me acompanha até o terminal de despacho de bagagem. Coloco a primeira mala na esteira, onde só existem roupas e presentes. Coloco a segunda mala, onde estão minha cãmera, celular e computador, ela me interrompe. “Senhor, essa mala nós vamos levar até outra sala, e ela será embarcada junto com suas coisas em seguida”. Não me dou ao trabalho de perguntar a lógica, já sei a resposta israelense pra todas as perguntas: “é sigiloso, questão de segurança”.

A agente me acompanha até o ultimo guichê antes do embarque. Cheguei no aeroporto por volta de 13:30h, agora são 16:40h. Tenho tempo de ir ao banheiro, jogar um café no ânimo e correr para meu vôo. 

Antes de embarcar, um segurança simpático verifica minha passagem, sorri e solta um sincero “O senhor aproveitou sua estada em Israel”. Claro, lugar adorável, gente adorável, metralhadoras adoráveis… “Volte sempre”!

Agradeço e sorrio o sorriso mais sincero. Ah sim, eu voltarei.

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