O Guia

“Me perguntaram: Ali, você colocaria outra bomba em Jafa, como antigamente¿ Não, eu não colocaria. Não porque tenha medo de ir pra a cadeia de novo, não senhor. Eu estive preso por dezessete anos, a prisão pra mim é como um hotel cinco estrelas. Não, eu não faria novamente porque eu criei cinco belos filhos, e não é isso que eu quero para eles. Eu faço meu ativismo, conto minha história para as pessoas, porque existem bons israelenses que querem viver em paz conosco, e a minha bomba pode fazer a diferença entre o vizinho judeu que desejará a paz comigo e o soldado que pegará um rifle contra meus filhos. Eu quero a paz. Mas não pensem que sou um homem gentil. Eu tenho meus alvos: o exército e os colonos. Nós, palestinos, cansamos de trilhar os passos de Jesus.  Contra meus inimigos, serei como Sansão”.
O guia entrelaçava elegantemente sua biografia com a história da cidade. Sentado em uma poltrona vermelha, fumando lentamente, amargurado e enérgico, refletia algo de familiar quando falava. A voz suave e firme do velho negro que narra a história de gerações de luta, dor e esperança, soa como o canto do Muezzin que ecoa pelos corredores da cidade branca convocando a reza. Ouvir o ancião era ouvir a voz de Jerusalém.
Pouco mais de uma hora antes, Ali nos conduzia pelas ruas da cidade velha. “Turismo  bonito é para americanos estúpidos”, dizia ele. Ali não estava interessado em contar a idade das pedras. Nosso guia estava mais preocupado com as pedras que voam das mãos de crianças contra tanques de guerra.
Nosso tour começou nas portas do centro de estudos de árabe da universidade de Al-Quds. A cada passo, Ali apontava com sua bengala as flâmulas judaicas tremulando sobre as casas palestinas. Estandartes de colonização, debochando dos palestinos do alto das torres. Antes as estrelas de Davi pareciam combinar com a cidade, estrelas do meio-dia, mas agora haviam se tornado apenas zombaria.
Poucos metros a frente, placas de obras em hebraico. Ali nos conta que são as escavações por baixo da mesquita de Al-Aqsa. Segundo ele, os arqueólogos Israelenses estão procurando indícios que atestem a ancestralidade judaica do local, mas até agora não foram capazes de encontrar nada. Continuarão escavando até que a mesquita caia sobre o peso da obstinação colonial. Para os israelenses, a vitória de reduzir um símbolo supremo de fé islâmica em ruínas. Para Ali, as ruínas serão pólvora para a ira palestina.
Mais a frente Ali nos mostra a esplanada das mesquitas e o muro das lamentações. Não podemos nos aproximar, porque a entrada de palestinos é proibida. Subimos varias escadas e vemos o lugar de cima. Ao lado do local santo, uma grande alameda em obras. Israel está construindo um parque exclusivo para judeus. Antes, o lugar era um quarteirão de marroquinos, mas as famílias foram desalojadas em nome do entretenimento dos colonizadores.
Enquanto conversamos, dois soldados encaram Ali. Os meninos de farda tem idade para serem netos do Guia. Ali devolve o olhar sorrindo, desafiador. Atravessa os coletes de kevlar com a audácia que os anos de militância lhe conferem. “Viram como eu sou popular¿ Eles me conhecem. Eu sou o prefeito de Jerusalém”.
Ruas estreitas, flores nas varandas, pedras brancas, crianças brincando pelas ruas. Andar por Jerusalém com olhos desavisados é reconfortante. Uma placa indica o nome da rua em Hebraico e em inglês. Deveríamos poder ler também em árabe, mas as palavras estão cobertas com adesivos políticos judaicos. A simples existência da língua dos palestinos nas ruas parece ofender a sensibilidade israelense.
Duas meninas correm na nossa direção, e Ali as cumprimenta em hebraico. Elas parecem fascinadas com a figura simpática. À nossa frente há um playground, pra onde as meninas correm. Perguntamos ao nosso guia o que aconteceria se crianças palestinas se atrevessem à sentar em um dos balanços. Ele nos aponta os seguranças armados, garantindo que árabes não correm o risco de cometer tal afronta.

Em uma praça, Ali nos mostra dois prédios vizinhos: uma sinagoga e uma mesquita. À primeira vista, um símbolo da possível coexistência. A mesquita, entretanto, está desativada. Um senhor de barba grisalha e quipá bordado se aproxima e pergunta algo em hebraico. Ali responde tranquilamente. O homem pergunta quantos idiomas nosso guia fala. Seis idiomas. A erudição, mais do que um louvor, é uma condição de sobrevivência do oprimido. É preciso eloquência pra falar mais alto do que canhões.
Ali nos conduz até o ponto final de nossa jornada: o quarteirão africano, onde vive nosso guia. Este não é um tour comum, e não estamos atrás da história dos prédios. As histórias que importam aqui estão esculpidas nas pessoas. A poltrona vermelha de Ali, ao redor da qual nos recostamos para ouvir sua história, é o ponto chave do dia.
Quando pendura seu casaco, atira sua boina sobre a mesa de centro, se senta em sua poltrona e acende um cigarro, um monumento desaba sobre suas fundações. Assisto o homem perder dez centímetros de altura, músculos afrouxarem e os anos brotarem subitamente. Nosso guia é um senhor cansado. Pela primeira vez tenho um vislumbre sobre quanto esforço é necessário para caminhar com a bengala pelos incontáveis degraus de Jerusalém. Quanta coragem é necessária para atravessar de cabeça erguida a cidade velha, com suas bandeiras debochadas, seus soldados imberbes, seus colonos arrogantes e seus gatos vigilantes. Quanta força é necessária para contar e recontar piadas para estrangeiros inocentes como nós, bem intencionados, que se emocionam neste par de horas, mas que voltarão amanhã com as malas recheadas de kufiyas para um país que podem chamar de seu. Quanta fé é necessária para arrastar suas pedras por essas paredes de pedra e não se tornar pedra também.
Nosso guia é um Guia por excelência, porque as marcas do seu rosto desenham um mapa de Jerusalém, com suas rugas, ruas e contradições, sua dor e violência, fé e força.
Nosso guia nos conduz pelo significado de ser Palestino.

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