Primeiro registro

Lembro da minha primeira assinatura na carteira. Eu trabalhava no prédio chique da secretaria de estado da cultura, mas no setor sujo, entre o depósito e a garagem. Passava o dia descarregando caminhões de livros, empacotando e carregando caixas de livros para outros caminhões. Foram dois anos renovando contrato temporário a cada três meses, sem férias nem nenhum direito. Tínhamos um vale-desconto de seis reais pra usar num self-service da José Paulino, onde o quilo custava quinze conto.

Na época não existia MEI. Pra se registrar como “trabalhador liberal” era preciso fazer o CCM, para o qual as categorias isentas eram: balconista, atendente de caixa, músico e artista circense. Então, fui à prefeitura e disse pra a mocinha que eu era um palhaço. Ela não achou engraçado, mas eu também não estava rindo.

Quando assinaram minha carteira, eu chorei. De verdade, eu cheguei em casa e chorei. Quando digo “casa”, me refiro ao sofá velho de pano na sala de um amigo, onde eu dormia em troca de cem reais de contribuição mensal, que era o que dava pra pagar. Assinaram a minha carteira, e eu fiquei gordo e feliz. Subia as escadas do self-service como se desfilasse num tapete vermelho. Meu prato tinha feijão, picanha, sushi, lasanha, peixe, ovo, cebola… se tivesse sorvete no bufê, eu colocaria por cima do arroz e esguicharia meio litro de calda de chocolate junto.

Com a carteira assinada eu continuava sendo um nada, mas era um nada que começou a participar de reuniões gerais. A empresa era uma O.S. recém-criada, meio pilantra mas que tentava ser inclusiva. Consegui um pouco de voz, em grande parte porque, protegido pelas garantias constitucionais, podia dar meus pitacos sem tanto medo de ser mandado embora. E foi assim que em pouco tempo eu deixei de ser peão pra virar produtor cultural e editor de um site de literatura. Subi pro segundo andar, ganhei uma mesa, estava bem nutrido, minhas roupas e unhas não ficavam mais sujas de pó grosso no fim do dia, tinha relativa dignidade e liberdade. Estava estudando pro vestibular, não fazia cursinho e não tinha pc nem internet em casa, mas conseguia reservar parte do meu dia pra estudar no computador do escritório, nem que precisasse ficar depois do expediente. Não fosse isso, certamente nunca teria entrado na usp.

Quando me demitiram, minha mãe estava nos últimos momentos da doença, eu estava enroladíssimo com a universidade e não consegui outro emprego. Estava morando com ela, meu irmão e meu abuelo no Jardim Maristela, na divisa com São Bernardo. Quem mora longe sabe que ninguém contrata um funcionário que precisa tomar dois ônibus e um metrô pra chegar no serviço. Não fosse o seguro desemprego, certamente teria que ter trancado a faculdade.

Já faz um bom tempo que não tenho registro em carteira e agora quase nenhuma esperança de conseguir isso de novo. Por sorte, hoje tenho os recursos pra poder pagar as contas como autônomo. Não bebo cerveja artesanal nem compro ingresso do lolapalooza, mas vivo de trabalho intelectual, sentado na minha mesa, no meu quarto espaçoso, com um computador todinho só meu. Não é fácil mas é possível, justamente porque tive sorte. Muito trabalho, muito estudo, mas também muita sorte. Não só pela CLT (que não é nenhum milagre, mas faz toda a diferença), mas sorte porque me desenvolvi no auge do ciclo de prosperidade político-econômico-social da década passada.

É desesperador pensar que, se fosse jovem hoje, talvez eu continuasse carregando caixas fechadas de livros nas costas.

Sobre Empresariado, políticos e Síndrome de Estocolmo

 

Se há algo que ficou indiscutivelmente comprovado com os últimos capítulos da nossa crise nacional, é que praticamente todo o alto escalão da nossa classe política — e consequentemente todos os aparelhos do sistema democrático — é, direta ou indiretamente, subordinada aos alto empresariado. Isso é algo que grande parte da esquerda vem dizendo há anos, mas até agora ninguém podia ter dimensão real do quão profundo era o domínio do empresariado sobre a República. Assim, é perfeitamente compreensível que aumente a cada dia o descrédito sobre classe política. Agora, o que não faz nenhum sentido é que, exposto o parasitismo do alto empresariado em todos os esquemas de corrupção política, diante de tantos escândalos envolvendo empresas como a Odebrecht, revelado o potencial de destruição de que esse sistema de corrupção empresarial demonstrou ser capaz, as pessoas ainda sejam tão ingênuas a ponto de continuar tendo essa fé cega na figura d’O Empresário para gerir a máquina pública.

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A carne é fraca

Texto originalmente publicado em 18 de Março, no Medium

Na moral, vocês já viram churrasco grego? Sabe, aquele colosso de carne besuntada de sebo que fica girando na beira da calçada das ruas e avenidas de São Paulo, sendo temperado com poluição atmosférica e fuligem de escapamento? É servido no pão de ontem, junto com um punhado de salada seca que fica guardada numa gavetinha de madeira em cima do motor do rolete. Sei lá, de repente você não curte, mas vou te falar que na hora do almoço a fila no Grego do Paissandú é maior que no starbucks, não só porque o lanche é uma delícia, mas também porque é a fila de quem não tem muito mais do que três reais no bolso. Agora, faz uma experiência: chega lá e conta pra galera sobre essa novidade aí que a carne que eles estão comendo é de procedência duvidosa. Depois me conta como foi.

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Sobre kufiahs e turbantes

Texto originalmente publicado em 12 de fevereiro, no Medium

Quando voltei da Palestina, me perguntava se deveria usar kufiahs — o lenço que é símbolo da luta de libertação daquele povo. Então, conversei com ativistas palestinos, li vários textos feitos por eles e o que eles me disseram é que, no contexto de luta em que eles se encontram, poderia ser positivo que eu usasse esse símbolo (em situações políticas, e não como adereço fashion ou fantasia de carnaval) porque isso é coerente com o objetivo, ideologia e a estratégia de luta específica daqueles grupos organizados dentro daquele país.

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“Não sou racista, é uma questão de higiene”

racismo israelense

“Não sou racista, mas não quero árabes nas nossas piscinas porque os padrões de higiene são diferentes dos nossos”

 
No dia 28 de julho, Moti Dotan, chefe do conselho regional da Galiléa – parte do atual território israelense que compreende a maior diversidade étnica da região – disse, em entrevista à radio Koi Chai, que árabes não deveriam frequentar as piscinas mantidas pelo conselho, pois a sua cultura e hábitos de higiene podem ofender os padrões judaico-israelenses. Ao longo da entrevista, Dotan reforçou diversas vezes que sua opinião não era racista.
 

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